não somos mais que poesia
clamando a frágil inocência
de sermos efêmeros e equidistantes do fim
domingo, julho 02, 2006
esta noite não chove...
vejo um bule debruçado à janela do vizinho
na calma dos seus vapores, ele pensa na chuva que não cai e me oferece uma xícara de chá
agradecida sou, hei de evaporar um pouco desta noite para amanhã
assim o bule me conforta, me remete ao cheiro de terra molhada,
mas seca que estou reflito o céu estrelado e insone do inverno.
na calma dos seus vapores, ele pensa na chuva que não cai e me oferece uma xícara de chá
agradecida sou, hei de evaporar um pouco desta noite para amanhã
assim o bule me conforta, me remete ao cheiro de terra molhada,
mas seca que estou reflito o céu estrelado e insone do inverno.
rio de janeiro, 30 de junho de 2006.
o que meus olhos veêm é o mundo em câmera lenta, imitando-se desfeito, insidioso,
às doses das dores, que se encarnam indóceis repentinamente nas mãos da paisagem anterior
e tudo que sucede é a invenção, é a suposição replicando ao cansaço a enfermidade do sono,
a hipnose da morte, é a surdez que tateia a própria voz
e parte do que procuro não é normal, nem se conjuga, porque desse mundo só faço abrir o regresso
nada de novo contenta-me a palavra, porque o mundo me devolve ao tempo em que parti
e dali em diante eu já sabia o que meus olhos veêm agora.
às doses das dores, que se encarnam indóceis repentinamente nas mãos da paisagem anterior
e tudo que sucede é a invenção, é a suposição replicando ao cansaço a enfermidade do sono,
a hipnose da morte, é a surdez que tateia a própria voz
e parte do que procuro não é normal, nem se conjuga, porque desse mundo só faço abrir o regresso
nada de novo contenta-me a palavra, porque o mundo me devolve ao tempo em que parti
e dali em diante eu já sabia o que meus olhos veêm agora.
sexta-feira, junho 30, 2006
ópera centenária ou inventário
já lembrava da última vez em que chorei, metade em compartilhamento, metade em esconderijo, metade pelo apaziguamento. sim, foi mais do que pude. e transtorno a força dos rumos. os contornos dos ciclos eternos, circundamente inesperados... na hora antecipada. sim, foi mais do que cedo, por mais preterido que aparecesse este instante insólito e disfuncional, porém convincente até a última gota de lucidez. comemoro a interrupção enfim do discurso coerente, engajada no seu contrário equívoco.
deveria me perder antes, mas tarde agora da hora me absolvo das circunstâncias ressonantes. era assim que eu poderia me despir, de nada e um pouco tudo... pois só consigo esconder o que sou.
quinta-feira, junho 29, 2006
ao fim da noite...
é quase uma manhã indigesta esta, não a culpo. o problema não é dela se o meu moral não resiste... basta de histórias, não gostaria de encarar outros olhos de censura, principalmente os meus agora. de olheiras o inferno se incendeia e as minhas me crucificam.
segunda-feira, abril 24, 2006
III
neste fim de tarde, sinto-me como psiquê, submersa na banheira, contando as folhas flutuando sobre os meus sonhos abertos. como uma deusa morta, jazendo feito o sol, que dele só resta uma aresta.
sexta-feira, abril 21, 2006
II
o desejo me pegou desprevenida ao mirar a calçada. te vi fumando com teus pés no chão.
eu não. com meus pés pro ar.
eu não. com meus pés pro ar.
terça-feira, abril 18, 2006
uma razão, uma alusão
então, chega de poesia sem maestria!
não conto mais com as incertezas
quero também um sonho alheio
que me transforme em outro desejo
sem espera
sem demora
só com as palavras para brincar
não é isso que fazem todos?
não conto mais com as incertezas
quero também um sonho alheio
que me transforme em outro desejo
sem espera
sem demora
só com as palavras para brincar
não é isso que fazem todos?
segunda-feira, abril 03, 2006
fingindo não notar...
quão inusitados sorrisos!
não quereis mais um pouco?
pegueis mais
fiqueis a vontade, deleiteis-vos com o alheio!
pois nada vem ao caso e nem com descaso
são só ventos sem propósito, mudos e fora de hora.
que nunca nada mudaram
e não tem em mim qualquer presença
da máscara que peca o riso
da queda que pranteia o rio, desde um amigo para outro
que se faz custear
a promessa das vontades de março
que se resolve na perda dos olhos de quem me procura
e que abstrai o paladar da língua dos sonhos.
tornastes o escuro daquela palavra
mas agora é ela quem grita
e está de partida como todos
que vem vão e parecem nem lembrar-se das honras.
não quereis mais um pouco?
pegueis mais
fiqueis a vontade, deleiteis-vos com o alheio!
pois nada vem ao caso e nem com descaso
são só ventos sem propósito, mudos e fora de hora.
que nunca nada mudaram
e não tem em mim qualquer presença
da máscara que peca o riso
da queda que pranteia o rio, desde um amigo para outro
que se faz custear
a promessa das vontades de março
que se resolve na perda dos olhos de quem me procura
e que abstrai o paladar da língua dos sonhos.
tornastes o escuro daquela palavra
mas agora é ela quem grita
e está de partida como todos
que vem vão e parecem nem lembrar-se das honras.
sexta-feira, janeiro 27, 2006
atômico platônico
se eu fosse tua, seria eu inteiramente tua, mas tu não me tens porque não me tens, não desta forma...
não se procura uma desesperança...
ouvindo vozes
duvidosas pontes
desconjuntadas
sou um grande inverso
imerso
camuflada
miniatura
da face assimétrica
em composição
improvável
de jeito consentido
contido desentendimento
austral
hexagonal
natural
nada em acompanhamento
vão
duvidosas pontes
desconjuntadas
sou um grande inverso
imerso
camuflada
miniatura
da face assimétrica
em composição
improvável
de jeito consentido
contido desentendimento
austral
hexagonal
natural
nada em acompanhamento
vão
domingo viscoso
divergindo–me ao
descentral
sobre-continental
desconcentro
desconserto
descontento
em termos infernais
atemporais
subespaciais
interferindo-me em
tentador
abrasador
toque de fuligem
morta
porta
fechada
descentral
sobre-continental
desconcentro
desconserto
descontento
em termos infernais
atemporais
subespaciais
interferindo-me em
tentador
abrasador
toque de fuligem
morta
porta
fechada
22.12.2002
houve os seres, os quereres e os poderes de um sonho interminável. os amantes alcançaram o ensejo de se encontrarem, iam e vinham sem pensar em sair. poetas os descreviam em sua página de céu. eles eram a dança de corpos e libidos da mesma cor. quem sabia o seu nome? tinham lá escrito qualquer destino, mas a cena se transformou. já não eram mais as bocas que lhes afagavam, e o chão transbordava em mãos d’água que os lançavam pelo rio. os peixes fluíam por entre eles pincelando ardor. nus se tocavam ao acaso da correnteza. de alguma música se lembraram depois, pois descobriam o nome daquilo. e foi um anel de palavra que os circundou e os calou. os poetas continuaram a fiar estrelas, aqueles dois corpos entre outros reluzentes por excelência, eles que se esqueceram de um mundo alheio e deixaram os seus involuntários movimentos de seda se perpetuarem naquele instante desvanecido.
quinta-feira, setembro 29, 2005
entreato
levanto os panos
e descubro-me em um papel para esta noite
sem face e figurino
num cenário instrumental
um monólogo sem platéia
e descubro-me em um papel para esta noite
sem face e figurino
num cenário instrumental
um monólogo sem platéia
instrumental
nada a dizer são também palavras ao frio
tentando aquecer o espírito que tanto pede
abrigo ou pronunciação
não é a espera da réplica
é algum gesto que se assemelhe ao silêncio
desejado não ter-se manifestado
tentando aquecer o espírito que tanto pede
abrigo ou pronunciação
não é a espera da réplica
é algum gesto que se assemelhe ao silêncio
desejado não ter-se manifestado
terça-feira, setembro 20, 2005
lamento da confeiteira
é ruim enquanto se acredita na doçura
porque nela também há o amargo
o amargo da sede
do calor
da vontade de tornar-se mais doce
como o vício que perdura
embora inunde agrados
sabe-se que um dia ela finda
e neste dia há de se deixar de acreditar.
porque nela também há o amargo
o amargo da sede
do calor
da vontade de tornar-se mais doce
como o vício que perdura
embora inunde agrados
sabe-se que um dia ela finda
e neste dia há de se deixar de acreditar.
terça-feira, agosto 16, 2005
contratempo
textura de alma desafinada
dúbia sonata desconsertada
para dentro palmatória, fora, flora
gritando em disparada o lugar adormecido
e a busca do verso desesperado.
dúbia sonata desconsertada
para dentro palmatória, fora, flora
gritando em disparada o lugar adormecido
e a busca do verso desesperado.
segunda-feira, agosto 15, 2005
o semblante do céu e o precipício de ânimus
pecado.
te soletro na calma com que minh’alma te expulsa,
esta mácula de passagem
pelos polígonos da vertigem-fé.
te abdico com o alento das quimeras
fiando o passo no retorno
ao termo de onde partimos
efeito de que éramos imunes.
mas os versos antagônicos
sempre retalharão
algo de plácido,
razoáveis espécies de analogia,
obstruindo o peito,
que incinerará
a vaidade das noites em sigilo,
porque
de joelhos conjuras o teu íntimo
à pálida fala do teu amor...
te soletro na calma com que minh’alma te expulsa,
esta mácula de passagem
pelos polígonos da vertigem-fé.
te abdico com o alento das quimeras
fiando o passo no retorno
ao termo de onde partimos
efeito de que éramos imunes.
mas os versos antagônicos
sempre retalharão
algo de plácido,
razoáveis espécies de analogia,
obstruindo o peito,
que incinerará
a vaidade das noites em sigilo,
porque
de joelhos conjuras o teu íntimo
à pálida fala do teu amor...
quinta-feira, agosto 04, 2005
menos a lua
chove tantas coisas que só servem para guardar
quem nunca ventou assim
o espaço entre as frentes
é colocado de lado na noite vazia
uma vez a mulher me disse
há de esquecer o que for enterrado
eu ouvi
embaixo de si não se julga por inteiro
é quase um objeto quebrado
essa música de todas as vozes
esse poder de estátua
fonte das coloridas águas desnecessárias
dão sorte quando chove outras coisas
e é esparramado o que não é esperado
quem disse sobre o nunca
pode sentar-se e aguardar.
já os cabelos crescem ao contrário
desde que voltamos no tempo.
quem nunca ventou assim
o espaço entre as frentes
é colocado de lado na noite vazia
uma vez a mulher me disse
há de esquecer o que for enterrado
eu ouvi
embaixo de si não se julga por inteiro
é quase um objeto quebrado
essa música de todas as vozes
esse poder de estátua
fonte das coloridas águas desnecessárias
dão sorte quando chove outras coisas
e é esparramado o que não é esperado
quem disse sobre o nunca
pode sentar-se e aguardar.
já os cabelos crescem ao contrário
desde que voltamos no tempo.
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