Sexta-feira, Julho 10, 2009

desprazer ao fazer de conta que não dói,
o estômago revirado, uma escarrada na alma...

Sexta-feira, Junho 12, 2009

um diálogo entre musos II

i had a dream...
leva consigo o que não cabe no divino
a lida da menina agigantada
o homem cala
o menino grita

ilustração:flor ; texto:pessôa

Domingo, Maio 31, 2009

PLANO - SEQUÊNCIA/INT./PLATEIA DO TEATRO
Black. FADE. À medida em que a imagem vai se fazendo, vemos o carpete vermelho sob os pés de sapatos e saltos cristalinos. A câmera é bem baixa e avança por trás desses pés, que vão subindo a escada central entre as platéias do teatro. Num certo ponto, pés descalços e masculinos passam pelos primeiros e a câmera acompanha estes outros que descem as escadas, agora de frente, em recuo e subindo levemente para a descoberta do personagem: as panturrilhas nuas e bem torneadas; as pontas do fraque aos joelhos; os pêlos púbicos desamparados; as luvas, os botões e a bengala; o peito e a borboleta da gravata; a barba por fazer; mas os olhos e a cartola de um lorde...
A campainha do teatro soa.
Câmera subjetiva/meu ponto de vista: o homem sorri e se dirige a uma poltrona da platéia esquerda, eu o sigo e sento ao seu lado. As cortinas estão ainda fechadas no palco, as luzes se apagam, paulatinamente, de trás das platéias para a frente. FADE. Black.

Sábado, Maio 30, 2009

a pressa que a calma se instaure em nós...

Sexta-feira, Maio 22, 2009

- tudo bem?
- tudo... tudo inspirado no meu manicômio ancestral particular...

Segunda-feira, Maio 11, 2009

é de secura o beijo se não entendemos as nossas línguas...

Segunda-feira, Abril 13, 2009

sigo imitando meus gestos, próprios

Sexta-feira, Março 13, 2009

vida canhestra
on the left
turn esquina poenta

Segunda-feira, Março 09, 2009

toda segunda-feira amanhece clara por alguma razão que me faz amar ou acender um cigarro.

Quarta-feira, Fevereiro 25, 2009

esta noite não chove... II

o espelho trincado olhava para ela,
indagando e repetindo seus traços entrecortados pela rachadura.
procurava qualquer reação nela a partir daquela compenetrada,
fixa num pedaço em branco de papel.
nem sequer ela se movia,
era puro enternecimento perante o nada.


pensava em que aquele reflexo?


e aquele outro?


eles esperavam alguma lágrima lhe sair dos olhos,
mas tão crus que se encontravam só puderam esperar.

por que esta espera tem um gosto tão doce?

Terça-feira, Fevereiro 24, 2009

persefonificando


a sorte me espanta os nomes,
nomes que se dão às coisas cabíveis ao sentido humano,
às coisas que deveriam participar dos dias,
ainda que bem no íntimo.
mas em toda e qualquer medida, eu não me encaixo,
mesmo contando ser privilegiada pelos sangues azuis e retóricas finas,
sublime como o nascimento da deusa ou o delírio do diabo.
diferente,
como no silêncio, a vontade se
parafraseia e eu me calo
doente de amor.
remedio o veneno
com a introspecção.
nem a mim destranco a porta.

Segunda-feira, Fevereiro 23, 2009

baile dos simulacros


no sonho, a tua boca desenhava a minha em tons de desatenção. tu, que eram tantos, cego nos traços, fazias da minha saliva um canto para o rei do que é inefável, aquilo que me tirava o chapéu à dança. e as mãos, que eram ainda as tuas, faziam enlaçar outros dedos aos meus numa valsa dúbia entre as faces que me desconheciam e os poros que me alcançavam... e eram os teus sempre, curiosos de abstração. deixava-me aos olhos lançados feito modelo que pousa com um assombro leviano, um simulacro semivisível das coisas secretas de amor, ainda que fôssemos palpáveis para a conveniência do universo. e eu apreendesse tudo o que nos permitisse, tudo o que um beijo inquietasse.

o sonho soava uma promessa...

mas, eu, entidade desperta, como quem padece da memória, desfiz-me à aurora, logo surpreendida pelas tuas inexistências.


Quinta-feira, Janeiro 01, 2009

lua em vênus

evoco a tua face até me constar divergida da realidade, como se me tocasse um sentimento alheio por me interceptar: não pise por onde não há caminho! e os sapatos novamente se vão. descalça percorro eu toda a senda por um fio de equilíbrio, alada em vigílias que me carregam para longe de um corpo, desatento, que grita o teu nome... caso fosses tu o movimento que me faltasse àquele corpo... ao relento, ao entorpecido fato de existir às vezes, quando se espera ao menos um sorriso, uma simpatia do acaso.

Quinta-feira, Dezembro 04, 2008

lilith. todavia...


Sábado, Novembro 15, 2008

idade do amor lascado



uma mala na porta e o mundo tal o que éramos

antes das velas nacaradas de junho, antes do real maravilhoso,
antes mesmo das religiões e dos blues cósmicos!

era de pedra que alimentávamos nossos ócios
sem saber nos existir
sem contar dias de bombons de uma fada doméstica

naquele tempo em que não se forjava poesias em improviso
quando mãos e olhos eram ainda de menina
e o cigarro era um prazer solitário
enquanto as manhãs virgens e claras
se dividiam entre os paralelepípedos prateados e uma árvore desconhecida.

ainda os renascentistas pintavam uma baía de sempre,
uma ladeira santa era paisagem para os planos de sol,
os amores eram rebentos balbuciando na varanda
e as madrugadas pertenciam somente às bruxas

depois,
nenhuma correspondência do além-mar inspirou cócegas
e nem chá com camofas se tomou

porque não se falava em voz baixa
e nem se tinha medo do medo

mas...
como nos tornamos metais, a mala na porta
significa que não nos amaremos mais!

Quinta-feira, Novembro 13, 2008

minerva de pecado (ou solo de um eco)

minerva, vieste a passeio na busca de um intelecto, cheirava a tédio todo o percurso.

catavas as saudades e outras poesias entre as horas que te penetravam... mas havia o termo exato para que te confundisse contigo mesma.

foste achar a memória da lógica, contas de subtração na adolescência.
risos deste de nervoso, minerva, cheia de espinhos na consciência.

orientes psicossomáticos vinham a te chamar uma atenção.

pediste silêncio aos teus passos; caíram na sombra da ciência todos os frutos de tanto te elucubrar.

escutou-se o pulsar da imaginação (segredo) em preto e branco, eram contrastes em outra língua.

por um instante, minerva, sentiste encontrar a saída, mas o teu labirinto já se multiplicava...

comum destino este de vagar por estranhas entrelinhas nas quais não se é permitido perscrutar.

Terça-feira, Outubro 14, 2008

dama de caos

ainda é tempo de me derramar na preguiça dos teus quadros, semivertebrados, confiados à penumbra e ao tato de uma seresta incolor... fiz de mim uma aquarela de chuva e no mais, esqueço o verbo e a predileção, encantamentos que me rastreiam em sonho de ordem... e na desordem das águas, me desfaço em traço estendida numa câmara escura sob o olhar de quem me espreita uma janela imóvel, dissolvida no tempo e na razão, mas quando me perpetuas, encontro no vão do sempre algo inominável, de sutil substância que convém aos mortais, e nessa inverossimilhança me pontuo ser de vigília constante e breve em terra além, e nada mais perdura como o intento de uma paisagem escorregadia, me desenhas uma musa de fato, me fias ao outro lado do espelho

Quinta-feira, Outubro 02, 2008

teias tecem aranhas tais

teias tecem aranhas cais
teias tecem aranhas ceias
teias tecem aranhas cheias
teias tecem aranhas mais

Domingo, Setembro 28, 2008

fala

como pude ter me tornado tão cruel... abomino que assim me sejam, e chamo-lhes de cachorros por língua alheia, dou-lhes à boca o nome. não me recordo, mas eu já deveria ter acertado as contas com deus, ou será ele quem me aguarda com a sentença interminável. pois meus pecados e eu, percorrendo aquela avenida silenciosa, estaríamos de acordo com qual destino de sugestão dantesca? e reparando naquele vazio enquanto caminhávamos, era precisa a derradeira palavra, já antevista, jazida incertamente entre uma submissão e outra omissão, variavelmente carnal. por uma persistência desobedecida, uma catarse incontida, uma cadência de repetir os mesmos maus gestos, também um vício de mau gosto. não meus... é inútil, sempre errante, por toda a eternidade.

o que os olhos ardem, o espírito palpita em horas claras, assim que ofuscam qualquer clareza que lhe seja imprescindível. às vezes, sinto chorar em mim o quebrar do tempo em coisas passadas que não mais se fazem sentido; faz-se, por conseguinte, um derramar de memórias anônimas. esqueço até o que virá acontecer quando assim me reverbero num ponto de fuga caleidoscópico, sem fresta, nem aresta. o pôr da lua, se não chega a ser um parto de dor, quase se perpetua num contrato de cegos, acorrentados uns aos outros, trazendo instantes de não se sabe onde para não se sabe quando. mas isso é inerente a todos que não sabem o que fazer com os ponteiros insones.

Quinta-feira, Setembro 18, 2008

quinta-feira, 18 de setembro de 2003

encontrei um banco de praça dentro da labareda de vinho que tomei ontem com uma velha amiga. sentadas nele enrolamos rochas de outrora alegres como os anos passados, longos e distantes. – ontem mesmo escutei este disco... – ...ainda me lembro daquele cílio que ficou no dedo. – a história continua assim.

a noite que chovia molhou o mundo inteiro, saí ao frio para aliviar minha sede. ouvia-se o som da capoeira na rua em que moravas. sentei-me à porta e desviei a atenção para o cachorro uivando de saudades de quê. o tempo se cansava e afastei-me de mim, corri sem voltar os olhos, o chão ia desaparecendo enquanto eu caía no profundo corpo. tua janela sempre aberta se fechou para o cachorro uivando de saudades minhas. eram o tempo e os olhos do cão. tentei me secar, mas ainda me retém a umidade de tudo.

durante a sessão, ele pensou que nunca mais voltaria àquele cinema, nem mais assistir aos filmes que também passavam ali. faria greve das vontades do mundo, o fim da graça daqueles anos mudados pelos girassóis que distribuía entre os amigos. depois pensou em arrumar as malas e contar as montanhas que encontrasse pela estrada, voltando para o lugar que jamais teria novamente. não teria o mesmo sabor, e o tédio o dominaria sem preguiça. a lua é a mesma, enfim, teria a paisagem da janela de sempre.

Quarta-feira, Setembro 03, 2008

Delírio Náufrago

sorriso náufrago
instantâneo instintivo
peculiar náufrago
malogrado perder-se espontâneo narciso

inspirar enamorar-se
desenho náufrago
vida exterior
impulso imerso líquido

percorrer atmosfera
espaço cósmico
cortante náufrago

quando existe irreversível
escuro espectro
devanear-se fantástico

fato fábula
mito náufrago

inebriar-se singular
calar-se face serpente
remoto náufrago músculo

inefável fluido
diáfano ruído

derramar-se peixe
oscilar-se ósculo
maleável denso
desterro temporário

oriente náufrago

oráculo ermo
sombrio áspero
vestígio náufrago

radiante efêmera
a duração do silêncio

o espaço entre linhas escritas
inolvidável devorar
insaciável vazante
delírio náufrago

(Daya Gibeli/Camila Marquez)

Domingo, Agosto 31, 2008

um aceno de quem fica

visitei minha morada. estava intacta pelos furtos da prole, diferente perspectiva tinha o cenário de minha vida. eu, ainda vestida do sono, parecia não ser a mesma pessoa que ali adormecera. das luzes amarelas restavam o perfume das angélicas e o devaneio de uma santa. acordara num improviso de lembrança, para resgatar o laço da missão, não fizera outra coisa que sonhar com ela. não esqueço das velas que choraram durante a viagem, dos passos que me acompanharam e dos ramalhetes que me presentearam até que enfim.

Domingo, Agosto 24, 2008

poema de desintenção

à fronteira de horas
eu, sensação de maçã
coincido com a invasão de amanhã
jugulada numa trança de auroras

Terça-feira, Agosto 05, 2008

domingo, 03 de agosto de 2003

que desejo de domingo expectorante para aliviar as expectativas dos dias de simulada libertação. talvez eu precise soltar os cabelos, tirar os sapatos e cantar uma música que fale alto aos ouvidos desatenciosos deste rumo em que vou me atualizando. basta de pensar suposições, os acontecimentos vêm, assim, inesperados, e nada adianta esperar por aqueles anseios sem nexo, a verdade é transitória, nada será como está agora... enfim, chegara o mês para os cachorros invadirem nosso cotidiano aos gritos e ventanias. cuidaremos por não enlouquecermos também.

Quinta-feira, Julho 31, 2008

domingo, 13 de julho de 2003

ai se Deus existisse...
daria ao tolos um sensato castigo!

salve a Mãe que tudo pariu!
que Ela ainda esteja no meio de nós...

Quarta-feira, Julho 30, 2008

sábado, 05 de julho de 2003

um disco tocando na vitrola me lembra as tardes de julho de outrora, o vento correndo pelo quintal e aquele grito frio vindo pela janela... foram os anos que se formaram numa década, em duas, três, e que sem se perceber levaram alguns e trouxeram outros tantos... as ruas e as casas se assemelham ao tempo... a maneira como essas cousas vivem é de um movimento peculiar. o tempo desgasta, invisível aos olhos, diferença que só grita ao espelho ou às fotografias em preto e branco, nas texturas e nos conceitos obsoletos...

ainda penso se existimos para lidar com as lembranças das tardes frias de julho com esta nostalgia impreterível.

nada além do meu desejo anti-horário...

Sexta-feira, Julho 11, 2008

terça-feira, 17 de junho de 2003

não tenho a mínima idéia para quem escrevo. exagero. talvez haja uma vaga suspeita. para mim, sempre... porém já ultrapassei o diálogo só, já percorri o sentido da expressão, já escrevo o que não sinto mais. não é mesma a coisa. alguém entende: agora a mão é leve, logo tudo pesa em dobro? quem me acha na contradição? alguém me acha, sempre me encontra... que irônico o fato de não poder falar com o mundo pela voz. fazer uma cena verossímil. necessito de que os personagens retornem à vida, vestidos de alma e posição. detesto esperar pelos outros. minhas mãos não agüentam as palavras por muito tempo, elas têm que se abrir, sair, mover algo menos pesado do que estas que discorro sob músicas que latejam o que nenhuma criatura entende...

Quinta-feira, Julho 10, 2008

sexta-feira, 13 de junho de 2003

esta noite envolve a lua, que cheia faz-me pensar azul, claro feito água, é a nudez da minha alma diante do mar de secretos ensejos... palavras mágicas são lidas sobre um papel que vem de longe, e sob esta lua, que cheia, faz-me pensar perto... este dia envolveu a essência e a poesia, sentimentos que passam por aqui às vezes e voltam ao lugar onde respiro, mas não vejo. não importa. eles existem, constam na música, meu ouvido que escuta o som do ar, da vida em evidência. esta noite envolve uma certeza.

Quarta-feira, Julho 09, 2008

domingo, 08 de junho de 2003

que desmantelo foi o seu grito neste dia de nuvens sufocantes! sabia que era desnecessário e, no entanto, soltou-o aos plenos olhos vigilantes do mundo sem fim nem piedade; irritou-se com as palavras azuis e trancou-as em seu quadro negro. as cores novamente... é porque são elas que nos sentem . qual a cor deste grito? ele indignado hesitava em sair, mas era de praxe que o seu egoísmo tenha prevalecido à boa vontade...

o silêncio, por vezes, é mais atento.

cuido das minhas palavras e a reciprocidade é bem vinda nestes dias de nuvens sufocantes.

por gentileza...

Segunda-feira, Junho 16, 2008

quinta-feira, 05 de junho de 2003

contudo, algum dia ainda darei gargalhadas desta passagem ao lembrar. não mais precisarei debruçar o pensamento sobre mim para proteger-me dos atropelos. nem o inventarei para aceitá-los. é de um cansaço construtivo que reclamo agora, embora este se faça necessário para os dias de lucidez que retomo com clareza. ou os tenho com clareza daqui em diante. ou tenham eles me tomado para a continuação da clareza enfim. por hoje resta a paciência, uma prudente ansiedade que se entrelaça aos meus sentidos, desaforados e imprecisos.

uma xícara de chá para acalmar os ruidosos dias de trabalho, por obséquio...

Quinta-feira, Junho 12, 2008

diálogo entre musos

embeba-me a calma
inculta-me a noite
necessária azíaga de sonhos
doces que deflorem
se a gente acorda,
que durma o amor ao lado
flutuante em vigília, alado

- a minha carne parece, às vezes, fibras de metais...
- feita de metades?

(flor e pessôa)

Segunda-feira, Junho 09, 2008

quarta-feira, 04 de junho de 2003

qualquer frase... queria dizer o que ando pensando, mas você já deve saber. nesta noite tudo soa menos doloroso. vejo verde, sinto lilás. o coração pode ainda estar sangrando e a cabeça compondo miséria, mas você já deve entender que nada disso será em vão... seja qual for a intenção do tempo, valeu a pena dizer qualquer frase que me remetesse a você. seja ela de qualquer cor...

Segunda-feira, Junho 02, 2008

domingo, 01 de junho de 2003

caminho lento e profundo em busca da minha própria cabeça. tento dar um basta aos vícios que me devoram e me tiram do real objetivo... qual! aquele de viver mais de cem anos de lucidez e paixão... mas por um instante vi que nada seria verdadeiro se eu não cresse na jornada que me cobra sobriedade e razão. disse-me você, hoje, que talvez (talvez, palavra minha inserida no discurso seu) eu fosse a única pessoa lógica do mundo. talvez você acredite nisso por não conhecer o meu. em verdade, não existe sequer uma lógica neste lugar. talvez eu tenha uma certa matemática instintiva que me mantém viva... talvez eu viva os anos que não sei como contar.

Segunda-feira, Maio 26, 2008

sexta-feira, 30 de maio de 2003

nesta manhã, sonhei músicas, numa casa - labirinto de portas e corredores - e um amor atemporal. eros reverencia, toma-me aos braços. como sempre. ele só me é presente íntimo da falta minha de lucidez. quando menos espero, penso dormindo, danço acordada com as pálpebras encerradas... é o nada. enganam-me estes lúdicos ensaios da vida que programo sem os querer em minha psique. sei que ele me é inacessível, um beijo azul que nunca se dará...

Sábado, Maio 24, 2008

sexta-feira, 16 de maio de 2003

uma criança distraída ao pôr do sol, imaginando delírios de uma vida cor de rosa. sim, quisera eu ser mais uma vez, porém já me pertenceu este momento e nem percebi de tão distraída que estive...

Sexta-feira, Maio 23, 2008

quinta-feira, 15 de maio de 2003

um dia após o outro. nada mais resta daquele sonho que esqueci quando acordei. a lembrança dilacerada foi o que ficou, penumbras de uma ação em fragmentos não lineares, desnecessários ao entendimento. peço um instante para a concentração. os elementos em questão se desfazem e não sei se quero recordá-los. conecto um diálogo só, os signos vêm e vão, e em nada me alivia a comunicação. difícil é lidar com o silêncio ensurdecedor. prefiro andar com o tempo, antes que eu me perca também...

Sábado, Fevereiro 23, 2008

paradigma da tempestade

é com gosto de tédio na boca que no tingir da tarde em cinza eu escolho as palavras para não ser engolida por mim. percorro a atenção no disco que gira, gira na vitrola e em nada me faz supor a interrupção dessas horas de vigília pela minha inquietação, a mais subordinada intenção de estar respirando o vazio das cores, eu busco o fim do fio da espera. arrepiam-me os sonhos que ali deitada na noite sem querer os tracei, os vivenciei. tão distantes mas conseqüentes dessas passivas paredes que me acolhem do breu do mundo. do tédio das águas, das telhas bombardeadas acima de minha cabeça, ardente feito a brasa do cigarro desesperado por mim. é de sono que me comporto na vida desta tarde, prometida às tarefas existenciais, antes esboçadas pelas páginas do jornal íntimo de amanhã. mas temo mais o trovão da branca agonia, e o grito de deus, dedilhando em meus nervos; uma musica que sobrepuja o seu pranto é o conforto que por ora o meu vazio suplica.

tempo em descaracter

quero dizer, às vezes, posso no escuro
às vezes, encontro-me com os olhos abertos
o que quero ver é
que todo o espaço teu
não permite o mau tempo...

Domingo, Janeiro 27, 2008

perfume de maio

as tardes de alecrim estampam na fotografia a placidez da tua companhia
que ficou atrás de uma translúcida cortina
descosturada como aquele tempo
esquecido, pendurado num galho de pensamento desbotado
um triste lembrar amarelado
mas preciso de intenção
que deixou qualquer música gasta pela agulha
da paciência ou dos óculos depositados num livro fechado
desconcentrado
que sangrou um amor vermelho e opaco
e nenhum medicamento influiria
nenhuma outra tarde seria tão lírica
mas os dias contam em regresso para que venham outra vez
sem a tua companhia, para que nada falte

as tardes de alecrim nada estampam
nada aludem, nem inspiram

as tardes de alecrim nunca existiram

Sábado, Janeiro 26, 2008

na véspera da febre,

cantam o lamento das bocas de vênus para salientarem um silêncio,
os personagens dos olhos de vênus para lhe desenharem no espelho.
porque é noite na precisão de vênus.
e no escuro o desejo é imensurável.
como essa ardência da lírica de vênus.
como todo deus.
mas à luz,
cantarão os suculentos sonhos da forma de vênus para não descobrirem-na deserta?
o derrame das espumas de vênus é um grito que se ausenta.

Segunda-feira, Janeiro 21, 2008

cinemascope brilhante I

o diamante atravessou a ponte do rio e coincidiu com a fábula da árvore preciosa.
foi mirando a ostentosa com um paladar indiscreto e direto à palestra:
- mas que vontade é esta?
apontou a maçã.
- agora ela é demasiada tardia. te provarei somente amanhã.
a continuidade do enredo não era um fato, ele sabia.
mas coloriu o segredo e se referiu ao próximo ato.

cinemascope brilhante II

foram as horas
e o rio

o tempo
se refletiu em outro instante
o brilho
arrastou sua vertigem para adiante
a maçã
insistiu um abraço de copa

e a manhã foi uma mordida precipitada.

cinemascope brilhante III

eis que a sábia fala ocorre à sombra...
onde jaz uma dúvida.

remota dúvida.

- agora provada irá ter com o mundo e o eterno?

cinemascope brilhante IV

se a dúvida é falta de respostas
a escolha é a perda de algumas delas

que sejam as vísceras, a torre, os olhos ou os sonhos...
os dedos para contar e os lados para medir

foi a esta qualquer intenção que o diamante se deixou debilitar
não permitia ao corpo a emancipação do seu costume
e nem à intuição a rebeldia do seu sangue


paciência...

eram quatro ventos que lhe sopravam a mesma tentação,
porém cada qual em distinta direção.

cinemascope brilhante V

ele antevê o derrame da lua que se esvazia, e dissimula a noite orgânica em uma fantasmagoria visceral, percorrendo incessantemente o verbo que se desfaz na boca próxima, amortecida pelo seu éter de amante. a rompe feito uma matemática excessiva e depois sela o vazio com silêncio. o que transborda é habitado pelas licenças poéticas, foge aos nomes e às línguas...

ela o sente como o vento que bate a porta...

cinemascope brilhante VI

o vento que encerra a porta, abre arbitrariamente o livro na página do meio. são descritos ali os termos das abstrações. porém todas elas se concretizam em palavras e nenhuma imagem se faz. depois, a página que se vira se torna a ela mesma, como se a continuação fosse única e estagnada pela falta dela. são logo as abstrações eternizadas, contidas num gerúndio babilônico, tão redundantes que a nada se abstrai também.

cansada, ela contempla pela janela um tempo para a monotonia, a séculos de altura, vivenciando sempre a mesma paisagem, a daquele amor sem idade e nem consumo. quase acredita em um seguinte capítulo, talvez o de descer ao futuro onde encontraria o solo para os pés descansar, mas lá do alto pensa no céu, onde sua nostalgia parece mais genuína e a remete às imagens que subliminarmente tingem seus pensamentos quanto aos antigos capítulos.

cinemascope brilhante VII

no escuro, ela vislumbra por outros olhos algo que lhe pertence. é tarde quando o tempo canta a sua existência e penetra-lhe numa incessante intenção entre os sentidos, ansioso por desnaturar os tecidos da sua intolerante negligencia. o seu corpo pede mais uma vez um pouco de reconhecimento, como se a insônia lhe obscurecesse o ar e arquitetasse um labirinto de tanta reflexão insólita. nenhuma sinuosidade lhe foi útil porque sempre se deparava com a mesma urgência, circundava em torno da monocromática inércia em busca do seu impreciso paradeiro.

no escuro, ela se espera sozinha, tateando o frio comprimento dos seus pêlos em espanto. nada lhe é mais visível do que a sensação que se causa agora, nem há outra graça além dessa nitidez tátil. ela, então, devora aqueles olhos para não esquecer o caminho que fizera até ali e se perde numa paz ensurdecedora.

logo, o cansaço a envolve para temperar a noite cúmplice que se adia, abotoando-lhe as densas pálpebras e conduzindo-a a silhueta de um sonho...

cinemascope brilhante 8

fugir do tempo era um beijo congelado, e a madrugada púrpura rebentou as hipóteses de um místico amor. mas este não cheirava feito o tempo, somente feria as concordâncias, todas ao frio do vazio, ante aqueles corações ardentes a derramar demasias de um grito sem lugar. quanto mais aquosos e pungentes, surtindo uma lisérgica ininterrupção, menos reparavam na condição do tempo perto de perder-se ao penetrar-se naquelas ânsias, feito integrante da matéria que lhes palpitou sem ruído.

fugir do tempo era perpetuarem-se náufragos, unidos por uma memória imprópria, e a inexistência pôde enfim tornar-se real, como a madrugada púrpura que nunca houvera. mas aquela simbiose ofegante, das vontades dos amantes, poetava-lhes os segundos seculares de que careciam.

ainda o faz...

Domingo, Janeiro 20, 2008

"onde morre a poesia?"

nada escapa à intenção do tempo, mesmo que os pés andem pelo chão e os dias pelos ares, a poesia permanece e é feito a lua... se hoje ela míngua, é porque ontem transbordou e, indubitavelmente, amanhã se renovará...

onde é só invenção...

cântico sem data VI

momento para concretizar
o que já é concreto,
viabilizar a impossibilidade
de ser o que já é...

cântico sem data V

São sete horas da noite e os ponteiros me servem de diagnóstico
É a vista que se turva para que outros reflexos me sejam favoráveis
Ainda reconheço as formas à minha frente
Mas onde estarei agora pincelando horas que me convém?
Percebi que o tempo não está ao meu lado
Foi este vento que bateu
E que ainda balança os pingentes de metal...
balança... balança...

cântico sem data IV

sinto por aquele sonho desinteressante...
tal qual fosse de papel e se borrasse com a ponta de idéia que se repete
um sonho de tédio!
sinto mesmo,
ainda desperta torno a usá-lo como esboço...

cântico sem data III

o penhor dos sentidos de agosto
confia o peito sobre a pedra irredutível e impalpável
do gozo ao desgosto
da rocha muda e perpétua
que confinada sob a carne omissa
aguarda a erosão de um segredo

cântico sem data II

estou captando a intuição subliminar...

e ela é explícita.

cântico sem data I

maneira de dizer, como os peixes me sobrevoam...
é o vento que os traz e logo os leva em retorno
instante de imperfeição
assim é como me parece a felicidade.

Terça-feira, Agosto 14, 2007

cinemascope brilhante IX

creio que a madrugada faça isso conosco... um devorar de horas distraídas... eu, implícita na penumbra dessas horas, cumpro a minha permanência inevitável entre a absorta respiração e o gozo invisível, a tudo me atenho um pouco e nada me faz juízo. quiçá descubro lá fora uma nuvem púrpura que me encante mais do que esconda estrelas, que me desenhe ao acaso numa doçura de seda ou numa chuva lírica - daquelas em que se deita para sonhar como o mar. eu não tenho pressa em amanhecer, a pressa é oriunda da manhã, dourada e infantil - eu nasci da tarde, ansiosa pelo poente e batizada sob a lua crescente... creia-me, a madrugada faz isso conosco, um pincelar de olhos desajustados a vagar ao infinito, e talvez nos percamos se olharmos o corpo na cama, deitado, quase falecido; se pecarmos pelo pavor, mas o ofício da dúvida é estar sempre em composição e o “se” lhe ser híbrido de “tanto faz”. pouco importa o que há depois das horas, se há sede ou sorte, ou a morte de uma pequena existência, pois os dedos da noite me penteiam as vontades, e sinto-me toda um esvoaçar de gigantes cegos a mirar pretensos acenos apaixonados de seus olhos vagos e translúcidos. tais quais, por ora, são essas sensações de faz-de-conta, feito um beijo de psiquê na escuridão... se somos eros, não sei, mas a luz não há de ser acesa antes que se amanheça. porque a madrugada sempre fez isso conosco... um demorar de horas distraídas.

Sexta-feira, Agosto 03, 2007

cinemascope brilhante X

o meu agosto é um cinema
é uma ladeira, uma madrugada
parada, atravessando uma cardinale
com a flor presa à orelha

um plongé de paralelepípedo
uma subliminar de estrela

Domingo, Dezembro 10, 2006

dissimula-se o que dizem os olhos

era definitiva a forma como me olhavam aqueles olhos castanhos em brasas, querendo invadir em mim os mais aferroados pensamentos dos quais nunca nutri os meus. novidade era estes olhos cercando o hábito que nunca atendi. buscavam nos meus a descompostura espontânea de um susto infantil, algo que se deflorasse com a súbita pretensão do que já ardia de malicia e pressa. e depois conceber dos meus o que os próprios viam dos outros olhos. como provar da sensação minha o que a sensação alheia me provocava. bastava-lhes isto para o controle do todo, confiando ao ato o implícito desejo de conjugarem-me sua. no entanto, como que meus olhos estivessem perdidos naqueles, ali enxergaram o mesmo. e agora é inevitável que eu os tenha igualmente.

Terça-feira, Novembro 28, 2006

acerto da impossibilidade...

o grito calado sofre de amnésia constante
amanhã nem se lembrará porque existiu
é demasiado tarde quando as palavras são audíveis
o tempo regenera a cicatriz do lamento
porque o tempo arde ao som da intenção

à meia luz todos os corpos são iguais
e todas as manhãs com as horas se tornam tarde
as cores arrastam as sombras pelo chão
ontem parece hoje
tudo permanece igual e nada parece igual
e com um pouco de imaginação é parida a resposta para o desatino

é melhor ferir do que remediar
é melhor chorar do que premeditar

só me preocupa aquele silêncio de pedra
porquanto ela se quebra e sangra qualquer coisa que não seja minha
lateja por outros dizeres

já não os sinto, não os lembro mais...

Terça-feira, Novembro 21, 2006

sobre a sonoridade do tempo

o meu amor vermelho tem mãos que me tocam com fúria. eu sou a guitarra por ele enamorada, vibrada pelas cordas por ele desafinadas, e nunca adivinho o seu andamento desarmônico. por seu capricho lhe sou o instrumento catártico e passivamente incido com o meu desencontro amoroso. às vezes me emudeço encostada à parede, às vezes me ensurdece suas mãos. o meu amor vermelho é uma decomposição inadiável. dias áridos são estes de uma guitarra desconsertada.

Quinta-feira, Novembro 02, 2006

composição da pressa

conto nos dedos as eternidades que se demoram
pelas manhãs em que não verso com o teu domínio
sobre os meus sonhos, as minhas agudas poesias
mas silenciosas
porque
grito sob as paredes do meu corpo
o meu torpor imaculado
a sangria, a ventania de uma voz
sólida, acesa e mascarada
a tatuagem em branco
na pele que se resseca esperando
a chuva da tua calma
e a abundancia do teu zelo pela minha.

Sábado, Outubro 28, 2006

ideando

meu pensamento é feito de matéria frágil, suscetível ao vôo e ao fogo. quando se queima, é sugerido pelo vento outro itinerário.

Domingo, Julho 02, 2006

o sorriso da fotografia

não somos mais que poesia
clamando a frágil inocência
de sermos efêmeros e equidistantes do fim

esta noite não chove...

vejo um bule debruçado à janela do vizinho
na calma dos seus vapores, ele pensa na chuva que não cai e me oferece uma xícara de chá
agradecida sou, hei de evaporar um pouco desta noite para amanhã
assim o bule me conforta, me remete ao cheiro de terra molhada,
mas seca que estou reflito o céu estrelado e insone do inverno.

rio de janeiro, 30 de junho de 2006.

o que meus olhos veêm é o mundo em câmera lenta, imitando-se desfeito, insidioso,
às doses das dores, que se encarnam indóceis repentinamente nas mãos da paisagem anterior
e tudo que sucede é a invenção, é a suposição replicando ao cansaço a enfermidade do sono,
a hipnose da morte, é a surdez que tateia a própria voz
e parte do que procuro não é normal, nem se conjuga, porque desse mundo só faço abrir o regresso
nada de novo contenta-me a palavra, porque o mundo me devolve ao tempo em que parti
e dali em diante eu já sabia o que meus olhos veêm agora.

Sexta-feira, Junho 30, 2006

ópera centenária ou inventário

já lembrava da última vez em que chorei, metade em compartilhamento, metade em esconderijo, metade pelo apaziguamento. sim, foi mais do que pude. e transtorno a força dos rumos. os contornos dos ciclos eternos, circundamente inesperados... na hora antecipada. sim, foi mais do que cedo, por mais preterido que aparecesse este instante insólito e disfuncional, porém convincente até a última gota de lucidez. comemoro a interrupção enfim do discurso coerente, engajada no seu contrário equívoco.

deveria me perder antes, mas tarde agora da hora me absolvo das circunstâncias ressonantes. era assim que eu poderia me despir, de nada e um pouco tudo... pois só consigo esconder o que sou.

Quinta-feira, Junho 29, 2006

ao fim da noite...

é quase uma manhã indigesta esta, não a culpo. o problema não é dela se o meu moral não resiste... basta de histórias, não gostaria de encarar outros olhos de censura, principalmente os meus agora. de olheiras o inferno se incendeia e as minhas me crucificam.

Segunda-feira, Abril 24, 2006

III

neste fim de tarde, sinto-me como psiquê, submersa na banheira, contando as folhas flutuando sobre os meus sonhos abertos. como uma deusa morta, jazendo feito o sol, que dele só resta uma aresta.

Sexta-feira, Abril 21, 2006

II

o desejo me pegou desprevenida ao mirar a calçada. te vi fumando com teus pés no chão.
eu não. com meus pés pro ar.

I

eu sou a noite chuvosa
brilhando ao chão
o mundo e eu.

Terça-feira, Abril 18, 2006

uma razão, uma alusão

então, chega de poesia sem maestria!
não conto mais com as incertezas
quero também um sonho alheio
que me transforme em outro desejo
sem espera
sem demora
só com as palavras para brincar
não é isso que fazem todos?

Segunda-feira, Abril 03, 2006

fingindo não notar...

quão inusitados sorrisos!
não quereis mais um pouco?
pegueis mais
fiqueis a vontade, deleiteis-vos com o alheio!
pois nada vem ao caso e nem com descaso
são só ventos sem propósito, mudos e fora de hora.
que nunca nada mudaram
e não tem em mim qualquer presença
da máscara que peca o riso
da queda que pranteia o rio, desde um amigo para outro
que se faz custear
a promessa das vontades de março
que se resolve na perda dos olhos de quem me procura
e que abstrai o paladar da língua dos sonhos.
tornastes o escuro daquela palavra
mas agora é ela quem grita
e está de partida como todos
que vem vão e parecem nem lembrar-se das honras.

Sexta-feira, Janeiro 27, 2006

atômico platônico

se eu fosse tua, seria eu inteiramente tua, mas tu não me tens porque não me tens, não desta forma...

não se procura uma desesperança...

ouvindo vozes
duvidosas pontes
desconjuntadas
sou um grande inverso
imerso
camuflada
miniatura
da face assimétrica
em composição
improvável
de jeito consentido
contido desentendimento
austral
hexagonal
natural
nada em acompanhamento
vão

domingo viscoso

divergindo–me ao
descentral
sobre-continental

desconcentro
desconserto
descontento
em termos infernais
atemporais
subespaciais

interferindo-me em
tentador
abrasador
toque de fuligem
morta
porta
fechada

22.12.2002

houve os seres, os quereres e os poderes de um sonho interminável. os amantes alcançaram o ensejo de se encontrarem, iam e vinham sem pensar em sair. poetas os descreviam em sua página de céu. eles eram a dança de corpos e libidos da mesma cor. quem sabia o seu nome? tinham lá escrito qualquer destino, mas a cena se transformou. já não eram mais as bocas que lhes afagavam, e o chão transbordava em mãos d’água que os lançavam pelo rio. os peixes fluíam por entre eles pincelando ardor. nus se tocavam ao acaso da correnteza. de alguma música se lembraram depois, pois descobriam o nome daquilo. e foi um anel de palavra que os circundou e os calou. os poetas continuaram a fiar estrelas, aqueles dois corpos entre outros reluzentes por excelência, eles que se esqueceram de um mundo alheio e deixaram os seus involuntários movimentos de seda se perpetuarem naquele instante desvanecido.

Quinta-feira, Setembro 29, 2005

entreato

levanto os panos
e descubro-me em um papel para esta noite
sem face e figurino
num cenário instrumental
um monólogo sem platéia

instrumental

nada a dizer são também palavras ao frio
tentando aquecer o espírito que tanto pede
abrigo ou pronunciação
não é a espera da réplica
é algum gesto que se assemelhe ao silêncio
desejado não ter-se manifestado

Terça-feira, Setembro 20, 2005

lamento da confeiteira

é ruim enquanto se acredita na doçura
porque nela também há o amargo
o amargo da sede
do calor
da vontade de tornar-se mais doce
como o vício que perdura
embora inunde agrados
sabe-se que um dia ela finda
e neste dia há de se deixar de acreditar.

Terça-feira, Agosto 16, 2005

contratempo

textura de alma desafinada
dúbia sonata desconsertada
para dentro palmatória, fora, flora
gritando em disparada o lugar adormecido
e a busca do verso desesperado.

Segunda-feira, Agosto 15, 2005

o semblante do céu e o precipício de ânimus

pecado.
te soletro na calma com que minh’alma te expulsa,
esta mácula de passagem
pelos polígonos da vertigem-fé.

te abdico com o alento das quimeras
fiando o passo no retorno
ao termo de onde partimos
efeito de que éramos imunes.

mas os versos antagônicos
sempre retalharão
algo de plácido,
razoáveis espécies de analogia,
obstruindo o peito,
que incinerará
a vaidade das noites em sigilo,

porque

de joelhos conjuras o teu íntimo
à pálida fala do teu amor...

Quinta-feira, Agosto 04, 2005

menos a lua

chove tantas coisas que só servem para guardar
quem nunca ventou assim
o espaço entre as frentes
é colocado de lado na noite vazia
uma vez a mulher me disse
há de esquecer o que for enterrado
eu ouvi
embaixo de si não se julga por inteiro
é quase um objeto quebrado
essa música de todas as vozes
esse poder de estátua
fonte das coloridas águas desnecessárias
dão sorte quando chove outras coisas
e é esparramado o que não é esperado
quem disse sobre o nunca
pode sentar-se e aguardar.

já os cabelos crescem ao contrário
desde que voltamos no tempo.

Terça-feira, Agosto 02, 2005

quem insiste na hora do dilúvio...

...transparece o cheiro da mortalha

Sábado, Julho 02, 2005

pedágio para as alturas

as criaturas de olhos vigilantes concordam em viagem, sucumbem à mesma travessia, mas por um momento erram seus degraus e deslizam em qualquer perda que soluce a pele do outro. e também são olhos entreabertos socorrendo o paradeiro do mundo a sós, numa escada corrente que promete chegar aos céus. sem um dia acabar. cansa aos mesmos olhos a demora da sina, da comprovação dela, a escolha do último instante, o derradeiro que anuncia por fim o presente infinito - delicado estado de chamar a pureza.
e não mais se encontram. procuram a volta e bastam de absurdos anseios. as criaturas somente inundam o que pretendem quando depressa se alcançam em permanência.

descuidado

não reconheço a tua intenção neste breve espaço desmesurado,
onde as palavras desconhecem um tempo
quando o inconfessável ignora o silêncio
em torno do gesto que te pede não.

de óculos escuros ou outro biombo fantástico

eu preferia o engano de esquecer todo e qualquer impasse que me traísse o sossego. seja ele evocado ou obrigado, cansado de implorar atenção deste corpo em exclusão do próprio movimento. o meu, a mercê das incertas coerências que se julgam num ímpeto de salvação. um erro. mas nada altera o lápis em sua história, nem a distração da cor conforta um imaginário já delineado em luz e som.

é tarde quando me escondo e noite quando recordo...

Domingo, Junho 19, 2005

argumento que se posterga

vivo uma certeza rarefeita desmembrando esta noite grave. noite, que baixa, degusta meu sustenido, quase inaudível. nem sustento a razão pelo que é, protagonista tão sem fôlego que sou, impermeada de ar e dia. não rara à minha culpa de indiferença e esquecimento é a incredulidade de que haverá a terra de minha poesia, tardes de vigília ao sol que fala. minha heróica vacilante, queres de ti uma virtude estimada? devo então cobrar-te as agudas funções do teu delírio incessante. e penso eu, à primeira vista é sempre a selva que se desdobra inconsolável, mas deste conteúdo de crepúsculo é feito algo como a água, insípida e brilhosa, dilatando as vias da vertiginosa noite em que vivo a enveredar.

Sexta-feira, Abril 08, 2005

enarmônicos por assim soar

entre uma quimera e outra nos preenchemos mutuamente
e deste invés de real nos acalentamos por silenciosas induções
cada um com seus assertos eternos e efêmeros
até que se conjuguem outros dias de amar.

Sexta-feira, Abril 01, 2005

de mosaico em mosaico...

eu já pensava que apenas fosse por acaso que se pescasse distraidamente o trajeto de outro acaso, que, no entanto com a igual e despretensiosa intenção se encontrasse aguardando. e o que me dita diante o inesperado-compartilhado é tão intrínseco quanto alheio. como duas intenções distantes avistassem o semelhante, tal qual, não diverso horizonte no instante exato, e por qualquer outra razão, sofressem do mesmo itinerário dos quais caminhos lhes proporcionassem. fazendo parte de uma misteriosa combinação que não me convém querer analisar, tão possuidora de ambigüidade e nebulosa lógica.
é tolice minha prestar os dias ao destino se o próprio se lança com uma atenção peculiar, visando com os olhos quietos à vontade da sorte. e que se vai se desdobrando em tantos acenos imprevistos. e que em imprecisão toca os rumos sem escreve-los. desde que os vivendo, harmonizando contrates ou desconcentrando eventos compatíveis.
meus sentidos têm de ficar atentos, pois as superfícies oscilam conforme a qualidade do tempo e os canais sinalizam entradas e bandeiras desde o umbral de cada passagem.

Quarta-feira, Março 30, 2005

durante suspenso

não é mais ser
é tocar a espera, de leve e recuo
inclinando o dia para transbordar a noite
feita quimera de si mesma
para digerir o que demora, prolonga
e tempera o interstício
é povoar o tempo de abstração
à esfera de ser resignada
por inventar o vindouro desejado
que lhe coubera ao instante.

cosmogônica

queria fotografar o infinito
e sequer sabia de sua existência
mas levantava aqueles cabelos para contempla-lo
ali rente à raiz da existência dela
a musa no escuro
perpetuando
ele invisível

Segunda-feira, Março 28, 2005

imitando qualquer um que eu conheça

a vida o pegou de jeito numa esquina de dúvida, que se passa pelas vias de fato? atinaria à vontade, ou simplesmente a responderia o quê? no entanto, se arrastou com certeza e deve-se à imprudência que a nada alcançou, mas no relógio o tempo já havia voltado, e ele sequer mudou de posição. esperou por disfarçar o óbvio e entrou pela primeira porta que pensou estar aberta. caiu por desilusão. pois bem, ele não foi o único a fugir.

penetrando qualquer lugar que eu vá

ainda que fosse de mentira, havia a esperança de atender o telefone que tocava, longe dali, à cerca da imaginação aguçada, pois era permitida ao estrangeiro a longa reticência de se sentir em casa.

Quinta-feira, Março 24, 2005

intuyendo te percibo...

desatascando los poros de la intención... existiendo en ambos los lados un sentido es pertinente... pensando tu es que te oigo.

Quarta-feira, Março 16, 2005

à deriva entre os vãos da pauta de outrora

não tenho palavras, mesmo porque sinto privação das exatas verdades que respiro, e o que venho valer é de demasiada alegria e dor, voa com a leveza de um papel solto em meio ao vento que se sucede, e pesa como a embriaguez que propõe toda aflição de uma noite sem ponteiros...

e não recordo as fontes de percepção para poder fazer deste pensamento um relato que se concilie com a realidade, pois nada retenho de real senso.

quero o que me faça reparar neste incompossível conceito que aflora em algum canto em mim descompassado, mesmo que fosse de desconhecido instrumento para poder absorver o que me é ignorado.

Sexta-feira, Março 04, 2005

derradeiro expurgar

para acreditar que o sentido das coisas era prático e definido eu precisava contornar os dias à procura do mais viável acontecimento, que faria de mim algo mais absoluto e largasse à sorte a espera dessa essência pouco administrável, que encontrei por um momento a atravessar-me como um vento sem direção.
o que acontecia de fato era o possível alarde que de a segurança dos desejos fosse a mais temível conjectura entre a vida e a morte, e assim, como a pele teme o ferrão da solidão, perdi a vontade da loucura e segui a rua noite adentro para encontrar a esquina em que nos deparamos com a certeza. era clara e convincente. que me agarrou numa suspensa ironia, a de suportar o que me é bem vindo e também desconhecido, a partir de provável acerto, a vida se renovando, a loucura mudando de cor e nome, avistei a breve relação das coisas em mim. pois estive procurando resgatar as noções que aprendi em outrora e que em nada obtive resposta, devido à impaciência da opressora cartada que me trouxera os últimos anos. não havia dúvida de que aquilo fosse a última oportunidade de tranqüilizar os demônios já prescritos em minh’alma e descobertos pela insistência das noites de insônia na encoberta cidade de destruição. um dia deveria partir dali, e assim o fiz, de forma tangente, sem alguém perceber. e logo que prestei atenção estava envolvida numa terra inteira das pessoas que se entretinham, ou que demasiadamente se expunham, mas que de certo ângulo fossem todas uma só, em detrimento de um mesmo sonho, o da liberdade que é o destino dos caracteres na história contínua. um grito de feliz agrado.

Quinta-feira, Março 03, 2005

possível amor...

um pouco do amanhecer dos dois estava a repara-los depois da noite que os emudeceu. havia entre eles um tempo dispendioso debruçado na distância de um vago intervalo. era simples como queriam, mas o percurso também era um silêncio, longo e tímido, e um deles deveria quebrá-lo, chegando ao outro lado daquele oceano que separava o desejo do ensejo. era simples como sabiam, mas ambos temiam que juntos fossem uma miragem, que seus corpos se esvaíssem desse mundo que não existia, e tornassem mudos à noite que esperavam em vão. o que bastaria para o amor se eles o deixassem intacto? por acaso estavam cansados de escreve-lo sem usufruir dos seus sons, e por fim chamariam-no em outro momento, quando a coragem se vestisse de um nome semelhante e a dúvida anoitecesse entre os dois.

Sábado, Fevereiro 26, 2005

atemporal

olha as horas. elas vão e não voltam. porque lá ficam, não sei onde, e me levam com elas.

Sexta-feira, Fevereiro 25, 2005

fragmentista enquanto inteira

não adianta chamar que não escuto... ando de um lado para outro na pauta de outra música, tocando um significado qualquer que não interfira em chamado algum. repito a nota, o acorde, a corda...

acorda e pensa. qual foi a fonte de toda essa fantasia? resume-se à vida que queres ter? desconheço a fôrma que te esculpiu para longe e a essa conduta de te desprender. todo mundo vê, mas ninguém acredita que do cheiro teu sobrará outra fantasia, a do acaso e repetidamente se faz a tua ausência. pois te atropelam por demasiada falta de interesse e o que te pensam não existir está ocorrendo em rápida resolução. verdades virtuais são de grande valia quando a natureza dilui-se em sonho.

assim existo como duas, uma que recebe da outra que dá. troco diferentes sentimentos comigo, à noite enquanto durmo, de dia quando dispenso a ilusão. há um remanejo de existência em cada instante que torno infindo. volto a pensar na condição da fonte, inspiração do espelho, que a tudo oculta senão deforma. e grito só amanhã!

não quero esquecer. de todo o resto eu peço permissão para ludibriar-me quanto a este choro. penso em cantar sozinha um trecho do meu eco.

é tanta poeira que as frases em lá se tornam indecisas quanto o sorriso em si... os abraços, na realidade, são de mágica convicção e nenhuma decisão precipitada irá se adequar em dó.

existem verdades dissolvidas entre raciocínios dispersos que mal eu as reconheço... insaciável desejo meu de expressar o que não sei...

Terça-feira, Fevereiro 22, 2005

imperceptível

meu mundo... tenho a impressão de que me olhas sem prestar atenção, com uma distração de criança, dos movimentos largos e imprevistos, tocando os espaços sem nome, sem chance de conquistá-los em verdade ou de compreender as palavras que se deitam feito os segundos; logo elas passam a não existir novamente, porque não se fixam, como a idéia de mim, em vista dos olhos teus que vão através, se distanciam e não enxergam meu corpo aqui, tão nítido quanto o teu. é como se eu não estivesse e tu despercebido fosses.

ai, mundo meu, reconheças a mim que tão logo já perco o enredo e a concordância!

Sexta-feira, Fevereiro 18, 2005

eu desconfio dos cabelos longos

o que está aqui dentro lateja, entorpece. é fuga de feitiço, que deixa o corpo abandonado de sossego. me contem desprevenida de todo acerto, e reflui ao ponto de me inverter. já bastam os cabelos longos e úmidos escorrendo empatia pelas curvas do dorso, e tocando a multidão dos olhos desmedidos. há um breve sentido de estar atento aos movimentos, enquanto estes adormecem quando a luz aborta a noite, mas desconfio que a cabeça esteja em outro lugar procurando o paradeiro de um sentido diverso. neste momento me lançam as vontades de quem me atem, e me ocorre a distancia das que eu construo. deixo de ser o pretexto abduzido e concentro a demasia de descontentamento e satisfação enquanto volto a sustentar as duas hipóteses de mim. o descompasso do corpo não resiste a mente, sem perceber torna a razão pelos ares, já despida de lembrança e acometida pelo instante. assim consumo o presente insaciavelmente etéreo e coincido com a real substancia que não chega antes do tempo.

Quinta-feira, Fevereiro 17, 2005

inverso do avesso

eu não sou a pessoa que deveria ser. e nem outra, participo de perto sobre minha vida alheia. no que me reflito, ou em quem me projeto. queria mesmo ser alguém com plena convicção de si mesmo, absoluto em ser.

espelho, espelho teu

de longe pareço uma árvore, assim me olho no teu espelho quebrado. recorro à memória de planta, desde a semente que engulo e faz brotar as duras folhas que escondem o meu fruto. sinto uma paisagem artificial invadindo o que penso em dizer ou realizar. pois viro um produto de outro, fragmentado, não condigo à historia de mim escrita, enraizada em que acredito. estarei eu disfarçada? amostras do que queres que eu seja?

entre as horas do moinho

não me contentam as dúvidas. atravesso os dias contando com duas moedas para driblar os atropelos, uma para cara e outra para coroa.

cara: ligo a vitrola e me ponho a escrever sobre coisas que passeiam pela incompreensão, pois acordo o dia com estranhas questões, vindas tão óbvias pela língua invisível do vento. às vezes, não reconheço a outra língua que responde um conhecimento que me é fora de alcance. torno a jogar com a sorte, uma vez que ninguém fala do vento. esconde, afasta e contorna, e torna...

coroa: ela não diz a verdade, é verdade, tampouco acredita que eu acredite nisso, mas finge como finjo que está tudo bem. logo, não restam dúvidas...

Sábado, Janeiro 29, 2005

orvalho ou vício de sereno

sou convidada desta noite que venta cuidadosamente, balança os pingentes de metal na varanda da linda vista, e traz e leva as nuvens chorosas no seu encalço.
ela veio molhada do dia que se prostrou monótono com o silêncio das águas caindo, passando, umedecendo os caminhos de pedra e encharcando a terra dos anuros. que como cantam nesta noite! e manifestam-se em cada quintal da rua da linda vista. que de vista é linda deveras... a aleatoriedade dos pinguinhos dourados são postes de luz da velha cidade, sobre o preto desta noite inspirando estrelas ao chão. ai...é um universo de pernas para o ar, embora não seja um equívoco estar assim. a noite preserva a frescura do que se pensa ou é sentido. torna-se objeto de contemplação e desliza entre os reflexos da atenção apaixonada ao se imaginar tocando-o, envolvida na melodia quase inaudível de um cão que ladra ao longe a outro solitário de lá, de um carro que sobe manso uma ladeira esquecida, e de um pássaro insone a clamar nossa existência febril. os pingentes e os sapos são os trovadores por excelência do vento e da chuva a me atravessar as horas preenchidas de extensas constatações.
assistir a esta noite conta como um acaso imprescindível que tranqüiliza as vontades dos deuses e resplandece nos corações inquietos.

cautela...

eu, quando escrevo, mudo de idéia facilmente.

ao passo do crepúsculo

vinda a noite propicia a calma das romarias internas. prometo não ejacular mais preces, cansei de esperar a chuva passar e comprei uma sombra de pano. ela molha e goteja em mim o cansaço do mar.
e de vapores eu sinto saudades. e de saudades esqueço a que vim.
no entanto, não preciso emergenciar as minhas desculpas, elas estão em prazo de validade. como o mel que avança em minha direção e nada adoça o dia.
e de dias dispenso a chuva, agora a noite é que me acalenta das romarias internas...

adjunto mais que perfeito jazendo em seu leito, o corpo do beijo

quando se torna azul, o contorno dos lábios tende a mover-se num vento e repouso, em espirais de ais e não se contém a olhos abertos, ou variante pensante. se sobressai à luz da razão tocando uniforme e presente o bojo de carne, onda rastejante entre o mudo e o ofegante. ato tenso e suspenso, arraigado fogo de águas transversas, apanhadas de susto e espera. concerne ao paladar viscoso, a tentação dos dentes rentes à sede lenta que se alenta ao eterno afinco, e de acesso permanente. depois limita-se esgotado, o músculo apaixonado, pela melodia incidental do gozo marginal, desencadeado de órbitas venosas em erupção. e sendo azul, deleita e penteia a ânsia de morrer novamente com essa intenção.

Sexta-feira, Janeiro 28, 2005

um chamado, cenas em lápis de corpo

não encontrava meio de dizer sobre o que lhe passava pelas idéias. então acreditou que a melhor forma era desenha-lo num sonho, em cores e som estéreo, para ela participar, ao menos, no que envolvia sua própria consciência. depois reportaria sutilmente a um ouvinte, que fosse um desconhecido pela rua a vacilar... tivera ela abdicado de outros desenhos, e se perguntava qual seria a imagem para melhor se recordar de algo que não havia acontecido. sim, acontecera em outros cenários, embora naquele, em que existia no momento, nunca tivesse se deparado com eles, os personagens que não criara. pelo contrário, eles eram de carne e amor. davam suas mãos e dançavam pelas ruas velhas da cidade. era de alegria que bebiam a vontade do outro de estarem assim, casualmente, amando-se numa realidade ansiada, que de vivida tornara-se nostalgia, e como sonho foi revivida enfim.

Quarta-feira, Janeiro 19, 2005

à minha direita está sírius...

tu bem que podias escrever o meu nome na estrela e esperar o que posso responder, se o teu, se tua sou ou se tanto faz. pois se já não existe verso suficiente para conter-nos, miro o céu para entender o que foi feito dos velhos tempos que nos rodeou, e ele, o céu, de tão grande, faz-me crer que o tempo não envelheceu, só se foi. e ainda estamos aqui. tu ao norte e eu ao sul, assistindo ao mesmo céu.

licença compreendida

o que as músicas não fazem aos meus ouvidos para me lembrar que existo?

antes tarde do que antes

é com muito prazer que venho por este resgatar uns dizeres preteridos.
hoje sonhei com uma casa enorme, construída sobre outra pequena, esta minha conhecida já. me encontrei em vista para o mar, mas que mar era este que não existia então? e as pessoas, como felizes eram! não há nada de errado em ser em sonho o que não se percebe em realidade. e isso se faz sem mesmo querer. aquelas pessoas existem, ao menos. e a felicidade se encontra, num devaneio de casa ou de mar, escondida ou correndo para não atrapalhar os de passagem por aí ou acolá, preocupados em não atrapalha-la também.
pronto, eu não podia mais atrasar estas palavras...

Segunda-feira, Janeiro 17, 2005

barroco até no existir

essa tarde de cravo, de bach, espera que eu me inspire de fato e ainda se deleita com as minhas vontades nubladas. não faz sol, faz de conta que acalenta e sua por todos os poros as palavras que aqui jazem sem fazer algum sentido. isso se refere à ressaca moral, após furtiva experiência de embriaguez na casa de um comunista da vida. que ontem de águas! resumo que tudo isso é fato e me inspiro por nada fazer. tenho alguns sonhos guardados e prontos para desengavetar as idéias ensolaradas. que hoje de nuvens! até parece que estou em casa, cansada, escrevendo para não perder de vista o que não enxergo mais, ou ainda. não, espera, sei onde estão! debaixo do meu nariz, imponente sensação de glórias, sombra dos lábios e parente dos odores, que espera dessa tarde de bach um cheiro de cravo.

não se esqueça de me lembrar

já que tocamos neste assunto, admito que a verdade sela a virada da rotina. acordo, abro a janela, como algumas frutas e então se estabelece a verdade. o que fazer com ela? coloca-la na rua para ver onde vai dar.
amanhã. amanhã vai ser diferente, acredita? só vendo.

para lennon & mccartney

mudo o lado do disco... ai que saudades de minas.

Sexta-feira, Janeiro 14, 2005

litorânea

depois daquele chá de arnica, sentou-se à frente da varanda e ficou a olhar o relógio da central do brasil iluminado, arcando com as duas horas da madrugada de 8 de janeiro.
era a primeira noite carioca que dela tomava conta, a envolvia com seus abraços calorosos. uma primeira impressão lhe escorria a face, um cheiro de mar assoprado de novidade nostálgica. esteve a mirar esta condição e achou estar próxima da procurada. foi um alívio imediato, e uma esperança que não tinha limite; assim constou num papel.
nunca havia galopado e na manhã anterior montou no cavalo pela primeira vez.
nunca também usara tantos “v”s num parágrafo como neste.

biombo fantástico

quero pedir a atenção de meus companheiros, para uma memória clamada em nome da ilustre mulher da face dúbia. a que esconde o choro atrás dos batons cor de terra para que os outros a invejem, com sua felicidade simulada em frases de impacto e filosofias meras que só mesmo ela para acreditar. enganava-se muitas vezes para recompor-se diante do nada. escondia de si a trágica e entorpecida verdade de que era ninguém, um silencio de caráter e mais uma alma sem perspectiva no começo de século sem zeros.
era de praxe que se olhasse no espelho e visse uma dama sóbria de longo cabelo negro penteado, ao contrário de entender porque chegava cedo da manhã, com a maquiagem derretida pelo suor da embriaguez. até uma mosca emaranhava-se nos seus fios de cabelo que arrastavam toda a agonia que pendia de sua cabeça, vítima dela mesma.
lutava para não enxergar o óbvio, mentia para os próximos... sim, está tudo bem, hoje eu vou ser feliz... mas dentro de seu coração ferviam a insegurança e o desespero de sempre. de não ser amada, estar só e morrer de sede e fome em algum canto do mundo.

Terça-feira, Novembro 30, 2004

saga acéptica

não era para ser fácil crer nesta história, mas a voz tornou-se perpétua, uma frase longamente concisa, e nada mais ficou tão obscuro. é incrível que as palavras façam de mim um momento seguinte. e continuam após. nunca me dão o tempo para entender, mesmo sendo as mesmas que se entoam. canso de me perguntar o que fui fazer com as tais respostas. mas para que a continuação enfim? a história anda de qualquer jeito, nem ela mesma se crê. tento ser mais dócil com o destino, e ele necessita me convencer que tudo o que há nela escrito faz parte de outra coisa. coisa de que não me acostumei. ora a rapidez dos capítulos, ora a pluralidade daquela voz.

não há terceira pessoa

enquanto as flores machucavam suas mãos era possível revelar ao outro a sensibilidade que lhe era autêntica. vinham depois inundações de poesia para acompanharem-na e faze-la se identificar com a inundação dos seus próprios furores. a dor ficava mais bela. mas logo ela pareceu impenetrável aos olhos que almejavam a hora da colheita, nem notara os espinhos, mastigou-os com a mesma doçura que os chorava. deixou-se deitar e rolar sobre eles, de forma que eles também a mastigassem, como aqueles olhos sempre fizeram. não era preciso escolher a razão para entregar-se à prazerosa dor, já havia colhido as sensações de outrora e saboreou uma conduta jamais apreciada. tornava ali um pouco do que não cumpria à sua fragilidade, vestia algo que não era a sua pele, era duro e pegava fogo sem se alastrar. então, ela foi desaparecendo, como os olhos já não pudessem mais vê-la.

contato sob entrelinhas

em algum momento do dia, eu pensei em querer, mas isso seria possível se fosse óbvio. querer é preto no branco, é alguém que grita e outro que dorme acorda. tenho minhas razões para sabê-lo, pois se está tão claro e o grito vira peça de antiguidade, exposta à luz da praça, é sinal que o querer virara uma lenda. uma quase certeza. enquanto a impossibilidade vai adquirindo sua forma, entretenho a linha do esquecimento, e as motivações encontram caminhos sei lá por onde, e logo chegam à qualquer explicação adequada para este desejo fazer algum sentido. apesar da distancia entre a sanidade e o sonho ser meramente um eco disseminado, o meu querer é ainda a base dos dias. 23/11/2004

Terça-feira, Novembro 09, 2004

diamante amante do dia

contentava-se em ter vontade de trançar os fios de cabelo numa noite de lua nova, acender uma vela na outra e percorrer os dizeres que fariam alguma justiça para o tal estado de espírito da mulher que crê no sentido da noite corrente. é uma justificativa para o tempo em que se manteve isenta de outras justificativas? vestia um vermelho de cetim quando abriu a janela e dali apreciou as partículas notívagas que saltavam de sua cabeça envoltas às divagações precisas sobre o que é contornar a vida ligada a um epicentro por um umbigo de ilusão. era derradeira a maneira que se prostrava diante de outro ser na véspera de seus dias, nada queria lembrar àquele o quanto precisou do biombo fantástico, superficial e transparente para dançar as lamúrias de outrora. é justo compreender as razões que levaram-na para a dimensão contrária à sua natureza... foi um dia em que se viu com o pincel sem cerdas na mão pintando uma gota ácida na fechadura do seu baú evaporado de sanidade, e conseguiu abri-lo tirando de lá tudo o que já não o continha... então respondeu ela com veemência: não, não existe essa justificativa que pertence a mim, nem outras. penso agora que antes não existiu também, e não há alma que me convença a procurar as telhas quebradas por onde deixei alguns sapatos solitários. prefiro andar descalça, os vidros cortam o que não sentem, como eu.
a janela permaneceu aberta enquanto dormia e às nove em ponto percebera que o sol batia em sua estante de livros.

Segunda-feira, Novembro 01, 2004

vislumbre ativo de um corpo em repouso

isso é tudo sobre meu entusiasmo que se esconde atrás das relações, dos dias mal contados, da mudança brusca do tempo e da imagem que se forma através de mim. tenho estado com as palavras na ponta da língua, o ato na ponta dos dedos e num lapso de memória ou outra coisa que retarda os meus sentidos, deixo tudo para depois. espero que amanhã seja tão claro quanto agora eu o programo. pois ele se veste de azul e ouro, reluz as sólidas perspectivas de sons, cheiro e uma leve brisa nos cabelos insinuando alívio. ocupar os dias com a sinopse dos meus sonhos tornou-se obsoleto e andar com as mãos enfiadas nos bolsos vazios é uma idéia para os papéis, personagem de mim que não consta no desenlaçar dos acontecimentos seguintes. pertence a mim a inspiração para tecer o cotidiano e parir com ele as criações dos meus propósitos. esquecer disso e cruzar os braços é deveras mais difícil do que tomar as rédeas do livre arbítrio. a contradição, porém, nos trai a certeza. sempre.
as madrugadas já não me servem mais, somente esta que me espera adiante.

Quarta-feira, Outubro 20, 2004

perdeu alguma coisa infinita?

a fome com a vontade de comer, mas que querer em demasia! nada satisfez o ser que grita mais uma vez. não se acostumou com os dias de redenção, esperava ter em suas mãos até o que não previu... tinha tempo para entender o que acontecia e mesmo que o sol amanhecesse, era a noite que ansiava. nada enxergou desse intermédio de vida. pelo menos de uma parte dele. e esteve entre tantas pessoas... agora precisa das madrugadas para espairecer.

Segunda-feira, Setembro 06, 2004

pensamentos de outrora que bateram-me à porta

é como numa varanda, estar vendo as pessoas passando tão ansiosas quanto eu por uma boa nova. na calçada molhada, as luzes se refletem por onde essas pessoas pisam apressadas e andam encolhidas ao som de buzinas e ao clima de 13 graus. umas levam o guarda-chuva fechado, outras nem sequer pensaram nisso ao sair de casa, mas quem sou eu para adivinhar qual foi o plano de cada um... eu não. pelo menos a chuva se retirou, prendeu num rabo de cavalo seus pesados cabelos d'água. e permaneço sentada numa mesa de bar na calçada só observando, nem querendo ser notada, mas será que alguma delas saberá que eu existo? elas não tiram os olhos do chão e quando muito reparam o relógio. o tempo passou rápido para quem não quis esperar. eu ainda espero. única diferença.

Quarta-feira, Junho 09, 2004

feitiço

será que o sapo se olhou no espelho pela manhã de quarta-feira? nada de espelho, ele já perdeu o rumo do castelo. e quem disse que um dia ele de lá pertenceu? deve ter seguido qualquer brejo de costume. antes somente vestia um chapéu com espada para ludribriar encantos de certeza. deu um trago no cigarro e explodiu no que antevi sobre mim mesma. ai, se não me pertencesse o antídoto, cairia novamente no conto de fadas mal contado.

Segunda-feira, Junho 07, 2004

juízo perfeito

os gritos serviram como estopim, alguém deve te-los escutado, e ainda respondeu-me com convicção. que ainda fazes aí? estás na beira da explosão! ou só não passou de uma voz imaginária. pois depois nada escutei, seria uma bomba de faz-de-conta? não dei passo algum, nem à frente nem para trás. talvez a pulsação era demasiada latente que nem percebi ser um coração.

Segunda-feira, Maio 24, 2004

permita-me

não me contento em ficar calada... pois esta noite se aproxima de maneira brusca. me surpreendeu de fato, o ato escuro. só pra começar, vou gritar bananeiras de insatisfação!