segunda-feira, janeiro 21, 2008

cinemascope brilhante III

eis que a sábia fala ocorre à sombra...
onde jaz uma dúvida.

remota dúvida.

- agora provada irá ter com o mundo e o eterno?

cinemascope brilhante IV

se a dúvida é falta de respostas
a escolha é a perda de algumas delas

que sejam as vísceras, a torre, os olhos ou os sonhos...
os dedos para contar e os lados para medir

foi a esta qualquer intenção que o diamante se deixou debilitar
não permitia ao corpo a emancipação do seu costume
e nem à intuição a rebeldia do seu sangue


paciência...

eram quatro ventos que lhe sopravam a mesma tentação,
porém cada qual em distinta direção.

cinemascope brilhante V

ele antevê o derrame da lua que se esvazia, e dissimula a noite orgânica em uma fantasmagoria visceral, percorrendo incessantemente o verbo que se desfaz na boca próxima, amortecida pelo seu éter de amante. a rompe feito uma matemática excessiva e depois sela o vazio com silêncio. o que transborda é habitado pelas licenças poéticas, foge aos nomes e às línguas...

ela o sente como o vento que bate a porta...

cinemascope brilhante VI

o vento que encerra a porta, abre arbitrariamente o livro na página do meio. são descritos ali os termos das abstrações. porém todas elas se concretizam em palavras e nenhuma imagem se faz. depois, a página que se vira se torna a ela mesma, como se a continuação fosse única e estagnada pela falta dela. são logo as abstrações eternizadas, contidas num gerúndio babilônico, tão redundantes que a nada se abstrai também.

cansada, ela contempla pela janela um tempo para a monotonia, a séculos de altura, vivenciando sempre a mesma paisagem, a daquele amor sem idade e nem consumo. quase acredita em um seguinte capítulo, talvez o de descer ao futuro onde encontraria o solo para os pés descansar, mas lá do alto pensa no céu, onde sua nostalgia parece mais genuína e a remete às imagens que subliminarmente tingem seus pensamentos quanto aos antigos capítulos.

cinemascope brilhante VII

no escuro, ela vislumbra por outros olhos algo que lhe pertence. é tarde quando o tempo canta a sua existência e penetra-lhe numa incessante intenção entre os sentidos, ansioso por desnaturar os tecidos da sua intolerante negligência. o seu corpo pede mais uma vez um pouco de reconhecimento, como se a insônia lhe obscurecesse o ar e arquitetasse um labirinto de tanta reflexão insólita. nenhuma sinuosidade lhe foi útil porque sempre se deparava com a mesma urgência, circundava em torno da monocromática inércia em busca do seu impreciso paradeiro.

no escuro, ela se espera sozinha, tateando o frio comprimento dos seus pêlos em espanto. nada lhe é mais visível do que a sensação que se causa agora, nem há outra graça além dessa nitidez tátil. ela, então, devora aqueles olhos para não esquecer o caminho que fizera até ali e se perde numa paz ensurdecedora.

logo, o cansaço a envolve para temperar a noite cúmplice que se adia, abotoando-lhe as densas pálpebras e conduzindo-a a silhueta de um sonho...

cinemascope brilhante 8

fugir do tempo era um beijo congelado, e a madrugada púrpura rebentou as hipóteses de um místico amor. mas este não cheirava feito o tempo, somente feria as concordâncias, todas ao frio do vazio, ante aqueles corações ardentes a derramar demasias de um grito sem lugar. quanto mais aquosos e pungentes, surtindo uma lisérgica ininterrupção, menos reparavam na condição do tempo perto de perder-se ao penetrar-se naquelas ânsias, feito integrante da matéria que lhes palpitou sem ruído.

fugir do tempo era perpetuarem-se náufragos, unidos por uma memória imprópria, e a inexistência pôde enfim tornar-se real, como a madrugada púrpura que nunca houvera. mas aquela simbiose ofegante, das vontades dos amantes, poetava-lhes os segundos seculares de que careciam.

ainda o faz...

domingo, janeiro 20, 2008

"onde morre a poesia?"

nada escapa à intenção do tempo, mesmo que os pés andem pelo chão e os dias pelos ares, a poesia permanece e é feito a lua... se hoje ela míngua, é porque ontem transbordou e, indubitavelmente, amanhã se renovará...

onde é só invenção...

cântico sem data VI

momento para concretizar
o que já é concreto,
viabilizar a impossibilidade
de ser o que já é...

cântico sem data V

São sete horas da noite e os ponteiros me servem de diagnóstico
É a vista que se turva para que outros reflexos me sejam favoráveis
Ainda reconheço as formas à minha frente
Mas onde estarei agora pincelando horas que me convém?
Percebi que o tempo não está ao meu lado
Foi este vento que bateu
E que ainda balança os pingentes de metal...
balança... balança...

cântico sem data IV

sinto por aquele sonho desinteressante...
tal qual fosse de papel e se borrasse com a ponta de idéia que se repete
um sonho de tédio!
sinto mesmo,
ainda desperta torno a usá-lo como esboço...

cântico sem data III

o penhor dos sentidos de agosto
confia o peito sobre a pedra irredutível e impalpável
do gozo ao desgosto
da rocha muda e perpétua
que confinada sob a carne omissa
aguarda a erosão de um segredo

cântico sem data II

estou captando a intuição subliminar...

e ela é explícita.

cântico sem data I

maneira de dizer, como os peixes me sobrevoam...
é o vento que os traz e logo os leva em retorno
instante de imperfeição
assim é como me parece a felicidade.

terça-feira, agosto 14, 2007

cinemascope brilhante IX

creio que a madrugada faça isso conosco... um devorar de horas distraídas... eu, implícita na penumbra dessas horas, cumpro a minha permanência inevitável entre a absorta respiração e o gozo invisível, a tudo me atenho um pouco e nada me faz juízo. quiçá descubro lá fora uma nuvem púrpura que me encante mais do que esconda estrelas, que me desenhe ao acaso numa doçura de seda ou numa chuva lírica - daquelas em que se deita para sonhar como o mar. eu não tenho pressa em amanhecer, a pressa é oriunda da manhã, dourada e infantil - eu nasci da tarde, ansiosa pelo poente e batizada sob a lua crescente... creia-me, a madrugada faz isso conosco, um pincelar de olhos desajustados a vagar ao infinito, e talvez nos percamos se olharmos o corpo na cama, deitado, quase falecido; se pecarmos pelo pavor, mas o ofício da dúvida é estar sempre em composição e o “se” lhe ser híbrido de “tanto faz”. pouco importa o que há depois das horas, se há sede ou sorte, ou a morte de uma pequena existência, pois os dedos da noite me penteiam as vontades, e sinto-me toda um esvoaçar de gigantes cegos a mirar pretensos acenos apaixonados de seus olhos vagos e translúcidos. tais quais, por ora, são essas sensações de faz-de-conta, feito um beijo de psiquê na escuridão... se somos eros, não sei, mas a luz não há de ser acesa antes que se amanheça. porque a madrugada sempre fez isso conosco... um demorar de horas distraídas.

sexta-feira, agosto 03, 2007

cinemascope brilhante X

o meu agosto é um cinema
é uma ladeira, uma madrugada
parada, atravessando uma cardinale
com a flor presa à orelha

um plongé de paralelepípedo
uma subliminar de estrela

domingo, dezembro 10, 2006

dissimula-se o que dizem os olhos

era definitiva a forma como me olhavam aqueles olhos castanhos em brasas, querendo invadir em mim os mais aferroados pensamentos dos quais nunca nutri os meus. novidade era estes olhos cercando o hábito que nunca atendi. buscavam nos meus a descompostura espontânea de um susto infantil, algo que se deflorasse com a súbita pretensão do que já ardia de malicia e pressa. e depois conceber dos meus o que os próprios viam dos outros olhos. como provar da sensação minha o que a sensação alheia me provocava. bastava-lhes isto para o controle do todo, confiando ao ato o implícito desejo de conjugarem-me sua. no entanto, como que meus olhos estivessem perdidos naqueles, ali enxergaram o mesmo. e agora é inevitável que eu os tenha igualmente.

terça-feira, novembro 28, 2006

acerto da impossibilidade...

o grito calado sofre de amnésia constante
amanhã nem se lembrará porque existiu
é demasiado tarde quando as palavras são audíveis
o tempo regenera a cicatriz do lamento
porque o tempo arde ao som da intenção

à meia luz todos os corpos são iguais
e todas as manhãs com as horas se tornam tarde
as cores arrastam as sombras pelo chão
ontem parece hoje
tudo permanece igual e nada parece igual
e com um pouco de imaginação é parida a resposta para o desatino

é melhor ferir do que remediar
é melhor chorar do que premeditar

só me preocupa aquele silêncio de pedra
porquanto ela se quebra e sangra qualquer coisa que não seja minha
lateja por outros dizeres

já não os sinto, não os lembro mais...

terça-feira, novembro 21, 2006

sobre a sonoridade do tempo

o meu amor vermelho tem mãos que me tocam com fúria. eu sou a guitarra por ele enamorada, vibrada pelas cordas por ele desafinadas, e nunca adivinho o seu andamento desarmônico. por seu capricho lhe sou o instrumento catártico e passivamente incido com o meu desencontro amoroso. às vezes me emudeço encostada à parede, às vezes me ensurdece suas mãos. o meu amor vermelho é uma decomposição inadiável. dias áridos são estes de uma guitarra desconsertada.

quinta-feira, novembro 02, 2006

composição da pressa

conto nos dedos as eternidades que se demoram
pelas manhãs em que não verso com o teu domínio
sobre os meus sonhos, as minhas agudas poesias
mas silenciosas
porque
grito sob as paredes do meu corpo
o meu torpor imaculado
a sangria, a ventania de uma voz
sólida, acesa e mascarada
a tatuagem em branco
na pele que se resseca esperando
a chuva da tua calma
e a abundancia do teu zelo pela minha.

sábado, outubro 28, 2006

ideando

meu pensamento é feito de matéria frágil, suscetível ao vôo e ao fogo. quando se queima, é sugerido pelo vento outro itinerário.