quarta-feira, junho 01, 2011

vEROSsímil

terça-feira, maio 31, 2011

diálogo com pretensão

É, faz tanto tempo...

...que não nos vemos...

...e nem nos falamos.

Tenho sonhado com você.

Eu sonho dia sim dia não.

E o não?

Não sonho. Não lembro. Hoje é não, e tenho a impressão de ter ido dormir pensando nisso.

Nisso?

Que eu não sonharia com você.

Mas é bem capaz estarmos sonhando. Eu não vim até aqui.

Nem eu.

Nem mesmo me levantei e escovei os dentes.

Eu só me lembro de ter escovado os dentes e me deitado.

Mas hoje não é o dia não?

Sim.

E mesmo assim estou no sonho?

Isto é um sonho?

Não parece. Sinto seus pés frios embaixo do lençol.

Eu sinto seus pelos das pernas nas minhas.

É, faz tanto tempo que nos amamos...

E nos enganamos...

Tenho sentido a sua falta.

Eu sinto dia sim dia não.

E o sim?

Não é hoje.

É quando?

Amanhã.

Quando eu levantar e escovar os dentes?

E ir embora.

Mas se eu não vim...

Então eu já sinto.

terça-feira, maio 17, 2011

Práticas da meia noite

Você, eu não sei, mas ela fez abuso do andar da carruagem, zombando da morte e da paciência, talvez tivesse a sorte da lua na casa 8 ou nos caminhos que deslizaram para a meia noite, lugar tão inóspito que a ninguém pertence. Disse que se lembrava dos seus passos na água, foi isso mesmo? Era o que também dava ideia de deslocamento, dos mesmos pés suspensos como se andassem sobre a água, e depois desviando dos paralelepípedos ela se lembraria do incêndio na padaria, quando de longe via um castelo da infância pegando fogo no meio do seu quarto às práticas da meia noite. Você dizia a ela que melhor que Peter Pan, ela viveria para sempre quando lavava os pés no chuveiro gelado da casa que não tinha janelas, mas frestas por onde entrava a curiosidade do vizinho. E nessa noite ela segurava a chuva com o pensamento, encostada à parede com a mesma vontade de soltar-se para longe, para aquela ladeira santa que ficava a quatro anos de distância, e assim lembrava o mundo de vocês num quadro preguiçoso que toda manhã ao acordarem tinham de emoldurar outra vez, nunca pertenciam à mesma noite inteira. Quando sem querer, você esbarrou na lembrança dela, como uma carta do Tarot mística, estrela e maçã. Os olhos risonhos inundaram a rua, e ela nem se dava conta que abrindo o guarda-chuva também guardava tudo para fora do pensamento. O castelo, o chuveiro, a meia noite. Um minuto depois, com a carruagem estacionada em frente à casa, o copo d’água que ela consigo dividia já estava vazio.

domingo, maio 15, 2011

diálogo com a tormenta

vigília em estado bruto

quero digerir telefones,
adormecer plásticos monstros sacrifícios,
que a abstinência de realidade delira imperfeição,

o que o corpo não vê a mente perdoa

quinta-feira, maio 12, 2011

.

eu tenho a licença poética para parar o tempo,
no tempo.

* foto double breast por erwin blumenfeld, 1948

domingo, maio 08, 2011

simples

hoje vejo como é simples o que o vizinho escreve, o que lhe corre pelo pensamento senta-se nas palavras. como o gesto de descascar a laranja, de volta em volta, com a faca desnudando a fruta sem precisar retomar o corte. coisa de destreza. coisa bem afiada na mão de que quem acha certo o que faz. é simples também dizer o que se passa pela memória quando se lembra. quando se lembra. às vezes tenho só as palavras chaves do seu discurso, então manipulo o que quero acontecer, falando pelos seus olhos faço dizer o que já foi preterido sem que isso soe meu. o que é seu. é que seria mais simples se eu prestasse atenção. no caminho da volta, depois, que a ida não tem mais particípio e me encontro em meio dessa sua, nossa história toda que ajudei a inventar. na próxima vez que me avise o tempo de parar. quem não estiver distraído. olho para o prato, e a casca inteira me dá vontade de revestir o bagaço da laranja. mas é melhor que não. é melhor mesmo colocar tudo na lixeira porque é simples esconder o que se pensa, mas em algum momento o cheiro da omissão fica evidente, o mofo nos olhos é o sinal de que a validade dos seres é breve. e das coisas que são ainda mais breves. vizinho que retorna à casa percebe se está sozinho, a luz apagada não precisa de explicação. é simples.

terça-feira, abril 19, 2011

# o meu subjeto é um cinema

foi assim, ela teve que se desencontrar com o rapaz do chapéu preto, mesmo que não fosse pretensão... dez minutos são sempre muito relativos... na praça havia um pretexto deserto, e ainda que presentes ali os quatro bêbados e a mulher dos cigarros a varejo, o bonde não demorou a passar, como os fulgores da madrugada dos músculos das memórias expectantes.
não perdia a viagem quando levava dois cigarros para casa.
do outro lado do filme.

* foto filmstrips kiki por man ray, 1922

domingo, abril 10, 2011

oráculo das oito

se eu não ligo a televisão é para não repetir os mesmos erros. a quem pertence essa fragilidade de se diluir em repetições e acabar por inventá-las? em ilusão. se hoje o meu sujeito é efêmero por degraus crescentes independentes, amanhã ele pode ser a pedra polida das gerações de chuvas que arquitetam o tempo. ainda prefiro ser assim, sem ter acesso às repetições sucessões previsões da chuva. o tempo anda bem de olhos fechados, só ele sabe por onde vai sem nunca precisar voltar.

sábado, abril 09, 2011

fluido fulgor faceiro
finito fado
feliz
feição

terça-feira, abril 05, 2011

eredità

no sonho eu me despeço do meu avô. eu, de partida para o mundo de nós, acordados, lugar aonde as idas são permanentes, à nossa revelia. mas no sonho, à varanda da casa dos ladrilhos amarelos e tijolos azuis, também o lugar de sempre, muito semelhante ao outro, ata-se firmemente a verdade num abraço e em palavras de saudade. palavras tão bem articuladas que é difícil distinguir uma fonte da outra, e meu avô em nossa língua tão familiar não sabe do que se despede na calma e no conforto de não dizer o que, mas revelando que não há despedida naquele abraço, que o contempla no que não há fim e que disso percorre os últimos segundos de vigília até eu acordar abraçada aos lençóis da manhã.

domingo, março 13, 2011

cala-me quando for preciso
os demônios lêem pensamentos em vão...

quinta-feira, março 10, 2011

mais quente e mais blues.

é um sopro na madrugada sem dono. sempre parece que conheço essa música, mas nunca reconheço. e insisto em conhecer, e parece mesmo que ela pertence à lembrança de alguma felicidade com você. e quando penso nisso sinto amor, amor que existia mesmo antes de mim, de nós, e que jamais deixará de ser. enquanto este sopro tocar quente não me importa qualquer memória imprópria, acontece o que não existe, e é isso o que fica para todo o sempre.

sexta-feira, março 04, 2011

Habitat

Tenho sono, mas o meu Corpo nervoso quer atenção. A minha. Acanhado e despossuído ele só quer a mim, tem medo que o desconcertem outra vez. Eu o acaricio devotadamente... Se meu Corpo fosse santo eu o louvaria, zelava para que o paraíso fosse nele igualmente. Então, meus dedos o tocam como os deuses concedem graça, e o recriam. Penso nesse Corpo agora não mais como a casa, mas o Habitat apreciado pelo destino por mim descrito numa folha de imaginação inquieta. Corpo, durma que ainda é tempo, é lugar, é forma de se querer. Eu peco, mas também guerreio pela tua vontade imortal de ser o seio do mundo, amamentá-lo da seiva que somente tua paixão compõe. Mas ainda o Corpo fora de lugar, minha flora mal-fauneada, desatenção redobrada, precisa de fé que o vento e a noite não a rejeitem.

terça-feira, fevereiro 15, 2011

diálogo entre musos III

cade?
não te li

oi
leu onde?

ah oi
não, vi uma mensagem naquele número vermelho, mas não li o que estava escrito

isso é meio esquisito mesmo
deve ter sido reminiscência da conversa de ontem..

ah... as reminiscências...

é com i ou com e?
... is offline.
... is online.

acho que com i

é, tem razão..
não tem escrito mais no blog
vc
nem eu..
fiz uns textos fora de data

tenho escrito, mas não postado... não tenho feito muita coisa no feitio do blog (de fazer um solo fértil para a MINHA literatura)
nem sei mais se a MINHA literatura existe
e você, pq não?

poderia colocar uns fragmentos no blog
nada precisa ter muito sentido a não ser que seja pra SER sentido..

eu?

eu não escrevi mais por falta de exercício ou inspiração ou vontade de estar assim

rsrsrs

vc? não sei.. o que vc escreve, eu digo
ser sentido e não ter sentido
entende?

to vendo... ãããããã... sentido, né?
aushauhsuahushauhsuahsuhaushuahsuahsa

hahahahaha
tenho mais é buscado fonte de
insPIRAÇÃO

fonte de SENTIDO

tenho observado o mundo daqui
... is offline.
... is online.

????????
pra inspirar-se basta inspirar... tenho pensado bastante nisso
a vida se basta!

esses dias eu liguei a câmera e me pus a falar de mim

é muito diferente do daqui?
bom...

depois pensei..
eu sei que não vou mostrar p ninguém..
basta! a vida é um cinema na maior proporção

na menor também

o mundo daqui? deve ser..
qualquer mundo deve ser diferente
que o seu

tem uma frase do Artaud que fala que "A arte não imita a vida, a vida é que algo de transcendente com a qual a arte nos põe em contato"
(Meu mundo?) pensei que estivesse falando do seu

a arte para se alcançar a vida.. gostei
faz sentido
é sentido

SENTE-se
uahsuahsuhaushauhsuahsuahusha!!!!!!

ah tá, vc perguntou (eu achei) se o daqui era diferente do "daqui" daí..

ah tá... ããããã o daqui daí, é diferente do daqui daqui (seus)?
é, eu sei que é
só quero saber como está o ãããã daí daí agora
... is offline.

procurando o lugar daqui sempre, né? (send as a message)
Your chat message wasn't sent because ... is offline.
... is online.
... is online.

oi?

oi (send as a message)
Your chat message wasn't sent because ... is offline.
... is online.

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

ENTREATO - E não era sequer uma luxúria de amor

ENTREATO - E não era sequer uma luxúria de amor from floratomo on Vimeo.

direção daya gibeli, victor pessôa rocha, thatiana verthein

cenário instrumental figurado ao final do take 7, sonhos insones, o susto em quando quase se acorda, delírio em cornucópia... divino e verossímil

trilha sonora original daya gibeli, victor pessôa rocha, wilson moreno, guilherme narciso

quarta-feira, janeiro 05, 2011

black is black

a chuva apertou naquele fim de noite e mundo, e ele contendo a ansiedade, tirou do bolso um cigarro avulso, acendeu mesmo assim, que molhasse, que não a encontrasse, depois que perdeu a cabeça e a hora, palavras são qualquer coisa que se faz desapercebida depois de certo tempo, mas ela não esquece, nem quer esquecer, há cada momento a voz rouca lhe pronuncia na mente, implorando de joelhos para que ela o ame ou vá embora, e nenhuma das duas coisas, ela não o amava e nem ia embora, ela queria calma, outra tatuagem no corpo, quando fizesse 33 anos. a noite é outra dessas coisas que se desfazem com o tempo, um pedaço de madrugada, as fotografias eram fiéis, black is black, e qualquer tentativa de amarrar essa mulher em sua vida era revelando o que mais do seu corpo na sua câmara escura avermelhada. agora. antes que o negativo amanhecesse. quero paz nos olhos de quem me espreita veludo. e os olhos já cravados no corpo dela era dimensão.

*foto de jacquelinne goddard por man ray, 1930

sexta-feira, dezembro 17, 2010

A peste

E ela fechou a janela para os morcegos não entrarem, porque nessas noites de verão a peste teima em entrar por qualquer brecha na sua vida. Sentou-se na mesa, os pés na cadeira e chamou por aquele que não se encontrava no quarto. Uma drosophila, no chão, parecia uma estrela, quase a confundiu com uma lantejoula que não brilhava. Pensou em colar estrelas nos cabelos, banhar-se de nebulosas se ainda pudesse. Porque em horas como essa, lembrava-se do que há do outro lado da janela fechada, ali o céu sempre estava ao seu alcance, quando deitada na cama encarava a lua, sua sereia apaixonada. E esperava o telefone tocar, como tocava aquele corpo seu livre da peste. Tocava sem sentir. Sem manusear, com as mãos ocupadas dos objetos pensativos, o telefone, a chave e a música que a contasse outra história. Em vão. Negaria se se perguntasse, mas em menos de meia hora já estaria do outro lado, na força de uma corrente, incoerente, fora da casa e de si.

sexta-feira, dezembro 10, 2010

Amor é irreversível.

Prendi-me à estética do princípio, no meu cinema. Mudo. Distraído. Agora furioso de palavra sem significado. Sensação de que tudo não passa de um ensaio para a existência que nunca chega. Em oito segundos acaba a eternidade.

sábado, outubro 23, 2010

le premiere bonheur de ma vie

no sonho, minha amiga e eu estávamos numa cidade labiríntica, diante de um longuíssimo mausoléu, talvez o cemitério mais antigo e maior do mundo, da história. espécie de egito na américa latina, méxico, machu pichu. mas outro lugar. a grécia. viagem do nosso imaginário. era noite. em casas simples e flores nos seus terraços. eu menstruava. em outra ocasião. alguém falava enquanto dormia, suspirava, murmurava o que não pode ser lembrado depois. na língua do imaginário. mas não me atenho ao sono alheio enquanto o meu ressoa bravo e patente. porque ele estava lá, le premiere bonheur de ma vie. no sonho. pedindo para que eu lhe dê uma forma. mas me recordo somente dos olhos dele virados para os meus. num sorriso de bom dia, princesa e suco de laranja. descubro, acordada, que o sonho é mais antigo que a cidade. e que o labirinto é o tempo. escorre para baixo o bendito tempo e ele diz que não habito mais o meu corpo, pois aquele já é outro.

sexta-feira, setembro 03, 2010

minha autoria

ela está matando o tempo com o amor alheio, vestida de veludo e céu para que as canções de sua cabeça sejam de um outro intérprete.

ela está matando o amor com o tempo alheio, despida de veludo e céu para que as canções de um outro intérprete sejam cravadas em sua cabeça.

ela está matando o céu com a canção alheia, encarcerada de veludo e amor para que o tempo devotado de sua cabeça seja de um outro intérprete.

ela está matando a canção com o céu alheio, liberta de veludo e tempo para que o amor descrente de seu intérprete seja de outra cabeça.

ela está matando o intérprete.