quarta-feira, fevereiro 10, 2010

chá verde

hoje, ao final da tarde, estive eu desenhando os desconhecidos ao redor, sentado à mesa do bar preferido da rua augusta. e ela era uma ruiva só, sob os óculos escuros e os fones de ouvido submerso numa rua augusta que alguém jamais descreveria. espalhou-se pela mesa, nos objetos e nos hábitos de quem está de passagem ou à espera do que não vai chegar. acendeu um cigarro de filtro amarelo e pediu o telefone do sujeito da mesa vizinha... clarice foi quem atendeu... quer-lhe encontrar, mas ela não sabe se é clarice quem espera. se estivesse mesmo naquela esquina da augusta, ela encontraria qualquer um, mas a ruiva parecia imitar seus próprios gestos, sempre como num deja-vù de tudo o que é e fez. desenhei-lhe porque ela é imperfeita, porque se reveste de uma ânsia silenciosa e tinha sobre a mesa um guarda-chuva verde. ela foi uma cena de cinema que ela mesma provavelmente escreveria, quieta em preto e branco, revelando somente as cores do seu cabelo e do guarda-chuva.

13/03/08

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

monólogo sem plateia

devo desistir desse vício antes que me enterrem por sua causa. minha Diana não está à vontade com ele, não aquela Ártemis das florestas que circundam o meu rio. ela é solitária, mas quer acreditar que não é. ou então que se basta. que não precisa acender um cigarro para aquecer a alma. para se fazer companhia. não lhe basta sonhar com o muso da vida tocando suas folhagens, ela espera que os seus passos se entranhem naquela terra. que a eternidade transborde daquele rio. Ela.

sexta-feira, janeiro 29, 2010

ludíbrio

quanta besteira a lua me fala, despudoradamente, ao pé do ouvido, que sou princesa sua, com a boca velada num selo, sêco o beijo; promessa de que toda sou, plena feito ela, feito as musas de cera, de mel e pólen e carne; ouvi dizer que arrancaria meu coração e o comprometeria à tempestade, de ferro e infrequentável, o vento sem medida; não sou fogo nem água, não falo nem penso. sou o silêncio desse vento só.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

estou falando do amor que se esparrama pelo chão, inunda e carcome os móveis da casa do corpo... doente, e que espera, paciente, todo este amor esgotar.

sábado, dezembro 05, 2009

mas não há tempo que me traduza
com tanta efemeridade no mundo
fui logo me apaixonar por uma eternidade

sexta-feira, dezembro 04, 2009

o silêncio quando não ousa só aumenta a tensão...

sábado, novembro 28, 2009

quebrado o coração, ele disse que voltaria para conserta-lo, quando buzinaram à frente, ele saiu, mas eu sabia que ele voltaria a quebra-lo.

sexta-feira, novembro 06, 2009

este é o retrato falado de uma mulher que não fala por ela

quinta-feira, outubro 08, 2009

de curiosidade morreu um gato..
de frente ao espelho..

quarta-feira, setembro 30, 2009

talvez do alto da montanha eu me conte estrela, simples e autônoma, e quando tudo virar pó, recepcionarei a grande nebulosa rebenta; eu, orgulhosa da quimera mais natural, começarei tudo outra vez em 22 de dezembro de 1978...

sábado, setembro 26, 2009

uma rosa hereditária

pensar alto a geração segregada entre loucos e sóbrios é a tentativa de temporizar o que a modernidade delegou aos seus... espaço para digerir as relatividades... mas é tudo sinônimo de idade média entre os dentes, quando a fala é pura subjetividade das bactérias que há em nós. faz tanto tempo, mesmo assim... porque a nostalgia é para os fracos, ambição daqueles que sequer vivenciaram o possível, toda uma preguiça da humanidade em ser ela mesma... alguns de seus dias são feriados; outros, puro ócio de consciência. não há nada de errado em nossos alter egos, eles até bem disfarçam que o mundo fora feito no meio das coxas de uma deusa, que entre uma lua e outra se reveza em mãe e puta, e também que, enquanto não está tricotando paixões, molesta aqueles cadáveres que ainda não caíram em descanso. fetiches de deusa... mas os dias também estão em conta de outro agiota: você que passa a década a ser motivo para alguém se creditar... há quantas anda o seu real? ou se basta pelo virtual? você é o gato no muro, observador do placar do cio entre os ratos, longe de se encantar pelo mundo, hiroshima não chegou à sua casa, pois já a tinha vendido para o outro agiota... quando muito, decidimos ser deus entre louco e sóbrio, a querer competir vaidades com aquela deusa que dispensa as muitas cerimônias e grita mais alto porque são dela as fogueiras e os crucifixos onde ardem os mortais. tudo porque você vende seus diplomas para quem acha ou não humano. para alguns a estrada acaba num muro alto, para outros sempre lhes há uma porta para se utilizar daquela chave bem guardada. um dia darwin me perguntou “o que será de nós em, pelo menos, 10 anos?” e eu respondi, “um novo cogumelo...”

segunda-feira, setembro 14, 2009

vontade de noite em frança

naquele antigo dia de outubro eu deveria ter feito a escolha... infelizmente, hoje é só um erro de continuidade..., tu me fizeste sair à rua a qualquer procura, porque de ti mais nada espero, definitivamente, de todos, eu prefiro o meu hermetismo..., vi o vento arrastar as latinhas pelo chão, um lugar tão distante, a praça estava já embriagada, dormindo no seu próprio banco, e eu ali na esquina dos que sobem ou descem, à essa altura para qualquer lado de rua, olhando uma calçada longa, porém nua, já imaginando uma mentira tua, a casa de alguém que te abriu a porta, a tua sina que eu sei decor, mas em verdade eu fui ali comprar um maço de cigarro para escutar l'hymne a l'amour, que não mais rima com dor...

terça-feira, setembro 01, 2009

abstinência

é tanta madrugada
fantasmagoria cúmplice
pelo crime da ira
os olhos abertos, os sonhos em falta
esperando florir em setembro
o não que cabe a todos
mas o vício não se despede
por que o hábito ainda me veste?

rezo por haver outra possibilidade
os milagres são qualquer coisa da fé
que cega não corta nem o pedaço de pão
o ar que não passa, não faz diferença

as horas me balbuciam, sou algum instrumento de corda
tic tac em silêncio, um eterno agora,
uma agonia manifesta...

é uma espera blasè...

talvez já tenha passado mil anos
e eu reparado que o inferno só é lembrado
quando é tarde demais para se dizer noite
ou muito cedo para ser um bom dia...

terça-feira, agosto 18, 2009

por isso eu permaneço o quanto mais distante do lúdico, esta noite quero ser real...

segunda-feira, agosto 17, 2009

i want you so bad

um pecado experimentado, mas insípido. e depois a minha pele, invisível na fotografia, mas úmida na febre alheia. estávamos em jejum.

não de nós.

quarta-feira, julho 29, 2009

os sonhos não mais substituem o que não tem nome,
mas o que tem fome...

quinta-feira, julho 23, 2009

A língua e a bainha

Não restarás louca como um rei
Num labirinto de sonhos e temporais
Não sofrerás pena
Nem terás tormento e fúria dos mitos da escuridão

De teus roucos mais secretos
O teu fogo na dureza da manhã
Mudará em cinza

Terás lençóis claros
E os cristais todos no meio
Com a marca do teu brasão

Sete espelhos das canárias
Dos quintais do fora louça de Aragão
E aventais negros

Não temerás sonhar como um rei
Num labirinto de gritos e temporais

Nando Carneiro, Geraldo Carneiro, José R. Resende (A Barca do Sol)

sexta-feira, julho 10, 2009

desprazer ao fazer de conta que não dói,
o estômago revirado, uma escarrada na alma...

sexta-feira, junho 12, 2009

um diálogo entre musos II

i had a dream...
leva consigo o que não cabe no divino
a lida da menina agigantada
o homem cala
o menino grita

ilustração:flor ; texto:pessôa

domingo, maio 31, 2009

PLANO - SEQUÊNCIA/INT./PLATEIA DO TEATRO
Black. FADE. À medida em que a imagem vai se fazendo, vemos o carpete vermelho sob os pés de sapatos e saltos cristalinos. A câmera é bem baixa e avança por trás desses pés, que vão subindo a escada central entre as platéias do teatro. Num certo ponto, pés descalços e masculinos passam pelos primeiros e a câmera acompanha estes outros que descem as escadas, agora de frente, em recuo e subindo levemente para a descoberta do personagem: as panturrilhas nuas e bem torneadas; as pontas do fraque aos joelhos; os pêlos púbicos desamparados; as luvas, os botões e a bengala; o peito e a borboleta da gravata; a barba por fazer; mas os olhos e a cartola de um lorde...
A campainha do teatro soa.
Câmera subjetiva/meu ponto de vista: o homem sorri e se dirige a uma poltrona da platéia esquerda, eu o sigo e sento ao seu lado. As cortinas estão ainda fechadas no palco, as luzes se apagam, paulatinamente, de trás das platéias para a frente. FADE. Black.

sábado, maio 30, 2009

a pressa que a calma se instaure em nós...

sexta-feira, maio 22, 2009

- tudo bem?
- tudo... tudo inspirado no meu manicômio ancestral particular...

segunda-feira, maio 11, 2009

é de secura o beijo se não entendemos as nossas línguas...

segunda-feira, abril 13, 2009

sigo imitando meus gestos, próprios

sexta-feira, março 13, 2009

vida canhestra
on the left
turn esquina poenta

segunda-feira, março 09, 2009

toda segunda-feira amanhece clara por alguma razão que me faz amar ou acender um cigarro.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

esta noite não chove... II

o espelho trincado olhava para ela,
indagando e repetindo seus traços entrecortados pela rachadura.
procurava qualquer reação nela a partir daquela compenetrada,
fixa num pedaço em branco de papel.
nem sequer ela se movia,
era puro enternecimento perante o nada.


pensava em que aquele reflexo?


e aquele outro?


eles esperavam alguma lágrima lhe sair dos olhos,
mas tão crus que se encontravam só puderam esperar.

por que esta espera tem um gosto tão doce?

terça-feira, fevereiro 24, 2009

persefonificando


a sorte me espanta os nomes,
nomes que se dão às coisas cabíveis ao sentido humano,
às coisas que deveriam participar dos dias,
ainda que bem no íntimo.
mas em toda e qualquer medida, eu não me encaixo,
mesmo contando ser privilegiada pelos sangues azuis e retóricas finas,
sublime como o nascimento da deusa ou o delírio do diabo.
diferente,
como no silêncio, a vontade se
parafraseia e eu me calo
doente de amor.
remedio o veneno
com a introspecção.
nem a mim destranco a porta.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

baile dos simulacros


no sonho, a tua boca desenhava a minha em tons de desatenção. tu, que eram tantos, cego nos traços, fazias da minha saliva um canto para o rei do que é inefável, aquilo que me tirava o chapéu à dança. e as mãos, que eram ainda as tuas, faziam enlaçar outros dedos aos meus numa valsa dúbia entre as faces que me desconheciam e os poros que me alcançavam... e eram os teus sempre, curiosos de abstração. deixava-me aos olhos lançados feito modelo que pousa com um assombro leviano, um simulacro semivisível das coisas secretas de amor, ainda que fôssemos palpáveis para a conveniência do universo. e eu apreendesse tudo o que nos permitisse, tudo o que um beijo inquietasse.

o sonho soava uma promessa...

mas, eu, entidade desperta, como quem padece da memória, desfiz-me à aurora, logo surpreendida pelas tuas inexistências.


quinta-feira, janeiro 01, 2009

lua em vênus

evoco a tua face até me constar divergida da realidade, como se me tocasse um sentimento alheio por me interceptar: não pise por onde não há caminho! e os sapatos novamente se vão. descalça percorro eu toda a senda por um fio de equilíbrio, alada em vigílias que me carregam para longe de um corpo, desatento, que grita o teu nome... caso fosses tu o movimento que me faltasse àquele corpo... ao relento, ao entorpecido fato de existir às vezes, quando se espera ao menos um sorriso, uma simpatia do acaso.

quinta-feira, dezembro 04, 2008

lilith. todavia...


sábado, novembro 15, 2008

idade do amor lascado



uma mala na porta e o mundo tal o que éramos

antes das velas nacaradas de junho, antes do real maravilhoso,
antes mesmo das religiões e dos blues cósmicos!

era de pedra que alimentávamos nossos ócios
sem saber nos existir
sem contar dias de bombons de uma fada doméstica

naquele tempo em que não se forjava poesias em improviso
quando mãos e olhos eram ainda de menina
e o cigarro era um prazer solitário
enquanto as manhãs virgens e claras
se dividiam entre os paralelepípedos prateados e uma árvore desconhecida.

ainda os renascentistas pintavam uma baía de sempre,
uma ladeira santa era paisagem para os planos de sol,
os amores eram rebentos balbuciando na varanda
e as madrugadas pertenciam somente às bruxas

depois,
nenhuma correspondência do além-mar inspirou cócegas
e nem chá com camofas se tomou

porque não se falava em voz baixa
e nem se tinha medo do medo

mas...
como nos tornamos metais, a mala na porta
significa que não nos amaremos mais!

quinta-feira, novembro 13, 2008

minerva de pecado (ou solo de um eco)

minerva, vieste a passeio na busca de um intelecto, cheirava a tédio todo o percurso.

catavas as saudades e outras poesias entre as horas que te penetravam... mas havia o termo exato para que te confundisse contigo mesma.

foste achar a memória da lógica, contas de subtração na adolescência.
risos deste de nervoso, minerva, cheia de espinhos na consciência.

orientes psicossomáticos vinham a te chamar uma atenção.

pediste silêncio aos teus passos; caíram na sombra da ciência todos os frutos de tanto te elucubrar.

escutou-se o pulsar da imaginação (segredo) em preto e branco, eram contrastes em outra língua.

por um instante, minerva, sentiste encontrar a saída, mas o teu labirinto já se multiplicava...

comum destino este de vagar por estranhas entrelinhas nas quais não se é permitido perscrutar.

terça-feira, outubro 14, 2008

dama de caos

ainda é tempo de me derramar na preguiça dos teus quadros, semivertebrados, confiados à penumbra e ao tato de uma seresta incolor... fiz de mim uma aquarela de chuva e no mais, esqueço o verbo e a predileção, encantamentos que me rastreiam em sonho de ordem... e na desordem das águas, me desfaço em traço estendida numa câmara escura sob o olhar de quem me espreita uma janela imóvel, dissolvida no tempo e na razão, mas quando me perpetuas, encontro no vão do sempre algo inominável, de sutil substância que convém aos mortais, e nessa inverossimilhança me pontuo ser de vigília constante e breve em terra além, e nada mais perdura como o intento de uma paisagem escorregadia, me desenhas uma musa de fato, me fias ao outro lado do espelho

quinta-feira, outubro 02, 2008

teias tecem aranhas tais

teias tecem aranhas cais
teias tecem aranhas ceias
teias tecem aranhas cheias
teias tecem aranhas mais

domingo, setembro 28, 2008

fala

como pude ter me tornado tão cruel... abomino que assim me sejam, e chamo-lhes de cachorros por língua alheia, dou-lhes à boca o nome. não me recordo, mas eu já deveria ter acertado as contas com deus, ou será ele quem me aguarda com a sentença interminável. pois meus pecados e eu, percorrendo aquela avenida silenciosa, estaríamos de acordo com qual destino de sugestão dantesca? e reparando naquele vazio enquanto caminhávamos, era precisa a derradeira palavra, já antevista, jazida incertamente entre uma submissão e outra omissão, variavelmente carnal. por uma persistência desobedecida, uma catarse incontida, uma cadência de repetir os mesmos maus gestos, também um vício de mau gosto. não meus... é inútil, sempre errante, por toda a eternidade.

o que os olhos ardem, o espírito palpita em horas claras, assim que ofuscam qualquer clareza que lhe seja imprescindível. às vezes, sinto chorar em mim o quebrar do tempo em coisas passadas que não mais se fazem sentido; faz-se, por conseguinte, um derramar de memórias anônimas. esqueço até o que virá acontecer quando assim me reverbero num ponto de fuga caleidoscópico, sem fresta, nem aresta. o pôr da lua, se não chega a ser um parto de dor, quase se perpetua num contrato de cegos, acorrentados uns aos outros, trazendo instantes de não se sabe onde para não se sabe quando. mas isso é inerente a todos que não sabem o que fazer com os ponteiros insones.

quinta-feira, setembro 18, 2008

quinta-feira, 18 de setembro de 2003

encontrei um banco de praça dentro da labareda de vinho que tomei ontem com uma velha amiga. sentadas nele enrolamos rochas de outrora alegres como os anos passados, longos e distantes. – ontem mesmo escutei este disco... – ...ainda me lembro daquele cílio que ficou no dedo. – a história continua assim.

a noite que chovia molhou o mundo inteiro, saí ao frio para aliviar minha sede. ouvia-se o som da capoeira na rua em que moravas. sentei-me à porta e desviei a atenção para o cachorro uivando de saudades de quê. o tempo se cansava e afastei-me de mim, corri sem voltar os olhos, o chão ia desaparecendo enquanto eu caía no profundo corpo. tua janela sempre aberta se fechou para o cachorro uivando de saudades minhas. eram o tempo e os olhos do cão. tentei me secar, mas ainda me retém a umidade de tudo.

durante a sessão, ele pensou que nunca mais voltaria àquele cinema, nem mais assistir aos filmes que também passavam ali. faria greve das vontades do mundo, o fim da graça daqueles anos mudados pelos girassóis que distribuía entre os amigos. depois pensou em arrumar as malas e contar as montanhas que encontrasse pela estrada, voltando para o lugar que jamais teria novamente. não teria o mesmo sabor, e o tédio o dominaria sem preguiça. a lua é a mesma, enfim, teria a paisagem da janela de sempre.

quarta-feira, setembro 03, 2008

Delírio Náufrago

sorriso náufrago
instantâneo instintivo
peculiar náufrago
malogrado perder-se espontâneo narciso

inspirar enamorar-se
desenho náufrago
vida exterior
impulso imerso líquido

percorrer atmosfera
espaço cósmico
cortante náufrago

quando existe irreversível
escuro espectro
devanear-se fantástico

fato fábula
mito náufrago

inebriar-se singular
calar-se face serpente
remoto náufrago músculo

inefável fluido
diáfano ruído

derramar-se peixe
oscilar-se ósculo
maleável denso
desterro temporário

oriente náufrago

oráculo ermo
sombrio áspero
vestígio náufrago

radiante efêmera
a duração do silêncio

o espaço entre linhas escritas
inolvidável devorar
insaciável vazante
delírio náufrago

(Daya Gibeli/Camila Marquez)

domingo, agosto 31, 2008

um aceno de quem fica

visitei minha morada. estava intacta pelos furtos da prole, diferente perspectiva tinha o cenário de minha vida. eu, ainda vestida do sono, parecia não ser a mesma pessoa que ali adormecera. das luzes amarelas restavam o perfume das angélicas e o devaneio de uma santa. acordara num improviso de lembrança, para resgatar o laço da missão, não fizera outra coisa que sonhar com ela. não esqueço das velas que choraram durante a viagem, dos passos que me acompanharam e dos ramalhetes que me presentearam até que enfim.

domingo, agosto 24, 2008

poema de desintenção

à fronteira de horas
eu, sensação de maçã
coincido com a invasão de amanhã
jugulada numa trança de auroras

terça-feira, agosto 05, 2008

domingo, 03 de agosto de 2003

que desejo de domingo expectorante para aliviar as expectativas dos dias de simulada libertação. talvez eu precise soltar os cabelos, tirar os sapatos e cantar uma música que fale alto aos ouvidos desatenciosos deste rumo em que vou me atualizando. basta de pensar suposições, os acontecimentos vêm, assim, inesperados, e nada adianta esperar por aqueles anseios sem nexo, a verdade é transitória, nada será como está agora... enfim, chegara o mês para os cachorros invadirem nosso cotidiano aos gritos e ventanias. cuidaremos por não enlouquecermos também.

quinta-feira, julho 31, 2008

domingo, 13 de julho de 2003

ai se Deus existisse...
daria ao tolos um sensato castigo!

salve a Mãe que tudo pariu!
que Ela ainda esteja no meio de nós...

quarta-feira, julho 30, 2008

sábado, 05 de julho de 2003

um disco tocando na vitrola me lembra as tardes de julho de outrora, o vento correndo pelo quintal e aquele grito frio vindo pela janela... foram os anos que se formaram numa década, em duas, três, e que sem se perceber levaram alguns e trouxeram outros tantos... as ruas e as casas se assemelham ao tempo... a maneira como essas cousas vivem é de um movimento peculiar. o tempo desgasta, invisível aos olhos, diferença que só grita ao espelho ou às fotografias em preto e branco, nas texturas e nos conceitos obsoletos...

ainda penso se existimos para lidar com as lembranças das tardes frias de julho com esta nostalgia impreterível.

nada além do meu desejo anti-horário...

sexta-feira, julho 11, 2008

terça-feira, 17 de junho de 2003

não tenho a mínima idéia para quem escrevo. exagero. talvez haja uma vaga suspeita. para mim, sempre... porém já ultrapassei o diálogo só, já percorri o sentido da expressão, já escrevo o que não sinto mais. não é mesma a coisa. alguém entende: agora a mão é leve, logo tudo pesa em dobro? quem me acha na contradição? alguém me acha, sempre me encontra... que irônico o fato de não poder falar com o mundo pela voz. fazer uma cena verossímil. necessito de que os personagens retornem à vida, vestidos de alma e posição. detesto esperar pelos outros. minhas mãos não agüentam as palavras por muito tempo, elas têm que se abrir, sair, mover algo menos pesado do que estas que discorro sob músicas que latejam o que nenhuma criatura entende...

quinta-feira, julho 10, 2008

sexta-feira, 13 de junho de 2003

esta noite envolve a lua, que cheia faz-me pensar azul, claro feito água, é a nudez da minha alma diante do mar de secretos ensejos... palavras mágicas são lidas sobre um papel que vem de longe, e sob esta lua, que cheia, faz-me pensar perto... este dia envolveu a essência e a poesia, sentimentos que passam por aqui às vezes e voltam ao lugar onde respiro, mas não vejo. não importa. eles existem, constam na música, meu ouvido que escuta o som do ar, da vida em evidência. esta noite envolve uma certeza.

quarta-feira, julho 09, 2008

domingo, 08 de junho de 2003

que desmantelo foi o seu grito neste dia de nuvens sufocantes! sabia que era desnecessário e, no entanto, soltou-o aos plenos olhos vigilantes do mundo sem fim nem piedade; irritou-se com as palavras azuis e trancou-as em seu quadro negro. as cores novamente... é porque são elas que nos sentem . qual a cor deste grito? ele indignado hesitava em sair, mas era de praxe que o seu egoísmo tenha prevalecido à boa vontade...

o silêncio, por vezes, é mais atento.

cuido das minhas palavras e a reciprocidade é bem vinda nestes dias de nuvens sufocantes.

por gentileza...

segunda-feira, junho 16, 2008

quinta-feira, 05 de junho de 2003

contudo, algum dia ainda darei gargalhadas desta passagem ao lembrar. não mais precisarei debruçar o pensamento sobre mim para proteger-me dos atropelos. nem o inventarei para aceitá-los. é de um cansaço construtivo que reclamo agora, embora este se faça necessário para os dias de lucidez que retomo com clareza. ou os tenho com clareza daqui em diante. ou tenham eles me tomado para a continuação da clareza enfim. por hoje resta a paciência, uma prudente ansiedade que se entrelaça aos meus sentidos, desaforados e imprecisos.

uma xícara de chá para acalmar os ruidosos dias de trabalho, por obséquio...

quinta-feira, junho 12, 2008

diálogo entre musos

embeba-me a calma
inculta-me a noite
necessária aziaga de sonhos
doces que deflorem
se a gente acorda,
que durma o amor ao lado
flutuante em vigília, alado

- a minha carne parece, às vezes, fibras de metais...
- feita de metades?

(flor e pessôa)

segunda-feira, junho 09, 2008

quarta-feira, 04 de junho de 2003

qualquer frase... queria dizer o que ando pensando, mas você já deve saber. nesta noite tudo soa menos doloroso. vejo verde, sinto lilás. o coração pode ainda estar sangrando e a cabeça compondo miséria, mas você já deve entender que nada disso será em vão... seja qual for a intenção do tempo, valeu a pena dizer qualquer frase que me remetesse a você. seja ela de qualquer cor...

segunda-feira, junho 02, 2008

domingo, 01 de junho de 2003

caminho lento e profundo em busca da minha própria cabeça. tento dar um basta aos vícios que me devoram e me tiram do real objetivo... qual! aquele de viver mais de cem anos de lucidez e paixão... mas por um instante vi que nada seria verdadeiro se eu não cresse na jornada que me cobra sobriedade e razão. disse-me você, hoje, que talvez (talvez, palavra minha inserida no discurso seu) eu fosse a única pessoa lógica do mundo. talvez você acredite nisso por não conhecer o meu. em verdade, não existe sequer uma lógica neste lugar. talvez eu tenha uma certa matemática instintiva que me mantém viva... talvez eu viva os anos que não sei como contar.

segunda-feira, maio 26, 2008

sexta-feira, 30 de maio de 2003

nesta manhã, sonhei músicas, numa casa - labirinto de portas e corredores - e um amor atemporal. eros reverencia, toma-me aos braços. como sempre. ele só me é presente íntimo da falta minha de lucidez. quando menos espero, penso dormindo, danço acordada com as pálpebras encerradas... é o nada. enganam-me estes lúdicos ensaios da vida que programo sem os querer em minha psique. sei que ele me é inacessível, um beijo azul que nunca se dará...

sábado, maio 24, 2008

sexta-feira, 16 de maio de 2003

uma criança distraída ao pôr do sol, imaginando delírios de uma vida cor de rosa. sim, quisera eu ser mais uma vez, porém já me pertenceu este momento e nem percebi de tão distraída que estive...

sexta-feira, maio 23, 2008

quinta-feira, 15 de maio de 2003

um dia após o outro. nada mais resta daquele sonho que esqueci quando acordei. a lembrança dilacerada foi o que ficou, penumbras de uma ação em fragmentos não lineares, desnecessários ao entendimento. peço um instante para a concentração. os elementos em questão se desfazem e não sei se quero recordá-los. conecto um diálogo só, os signos vêm e vão, e em nada me alivia a comunicação. difícil é lidar com o silêncio ensurdecedor. prefiro andar com o tempo, antes que eu me perca também...

sábado, fevereiro 23, 2008

paradigma da tempestade

é com gosto de tédio na boca que no tingir da tarde em cinza eu escolho as palavras para não ser engolida por mim. percorro a atenção no disco que gira, gira na vitrola e em nada me faz supor a interrupção dessas horas de vigília pela minha inquietação, a mais subordinada intenção de estar respirando o vazio das cores, eu busco o fim do fio da espera. arrepiam-me os sonhos que ali deitada na noite sem querer os tracei, os vivenciei. tão distantes mas conseqüentes dessas passivas paredes que me acolhem do breu do mundo. do tédio das águas, das telhas bombardeadas acima de minha cabeça, ardente feito a brasa do cigarro desesperado por mim. é de sono que me comporto na vida desta tarde, prometida às tarefas existenciais, antes esboçadas pelas páginas do jornal íntimo de amanhã. mas temo mais o trovão da branca agonia, e o grito de deus, dedilhando em meus nervos; uma musica que sobrepuja o seu pranto é o conforto que por ora o meu vazio suplica.

tempo em descaracter

quero dizer, às vezes, posso no escuro
às vezes, encontro-me com os olhos abertos
o que quero ver é
que todo o espaço teu
não permite o mau tempo...

domingo, janeiro 27, 2008

perfume de maio

as tardes de alecrim estampam na fotografia a placidez da tua companhia
que ficou atrás de uma translúcida cortina
descosturada como aquele tempo
esquecido, pendurado num galho de pensamento desbotado
um triste lembrar amarelado
mas preciso de intenção
que deixou qualquer música gasta pela agulha
da paciência ou dos óculos depositados num livro fechado
desconcentrado
que sangrou um amor vermelho e opaco
e nenhum medicamento influiria
nenhuma outra tarde seria tão lírica
mas os dias contam em regresso para que venham outra vez
sem a tua companhia, para que nada falte

as tardes de alecrim nada estampam
nada aludem, nem inspiram

as tardes de alecrim nunca existiram

sábado, janeiro 26, 2008

na véspera da febre,

cantam o lamento das bocas de vênus para salientarem um silêncio,
os personagens dos olhos de vênus para lhe desenharem no espelho.
porque é noite na precisão de vênus.
e no escuro o desejo é imensurável.
como essa ardência da lírica de vênus.
como todo deus.
mas à luz,
cantarão os suculentos sonhos da forma de vênus para não descobrirem-na deserta?
o derrame das espumas de vênus é um grito que se ausenta.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

cinemascope brilhante I

o diamante atravessou a ponte do rio e coincidiu com a fábula da árvore preciosa.
foi mirando a ostentosa com um paladar indiscreto e direto à palestra:
- mas que vontade é esta?
apontou a maçã.
- agora ela é demasiada tardia. te provarei somente amanhã.
a continuidade do enredo não era um fato, ele sabia.
mas coloriu o segredo e se referiu ao próximo ato.

cinemascope brilhante II

foram as horas
e o rio

o tempo
se refletiu em outro instante
o brilho
arrastou sua vertigem para adiante
a maçã
insistiu um abraço de copa

e a manhã foi uma mordida precipitada.

cinemascope brilhante III

eis que a sábia fala ocorre à sombra...
onde jaz uma dúvida.

remota dúvida.

- agora provada irá ter com o mundo e o eterno?

cinemascope brilhante IV

se a dúvida é falta de respostas
a escolha é a perda de algumas delas

que sejam as vísceras, a torre, os olhos ou os sonhos...
os dedos para contar e os lados para medir

foi a esta qualquer intenção que o diamante se deixou debilitar
não permitia ao corpo a emancipação do seu costume
e nem à intuição a rebeldia do seu sangue


paciência...

eram quatro ventos que lhe sopravam a mesma tentação,
porém cada qual em distinta direção.

cinemascope brilhante V

ele antevê o derrame da lua que se esvazia, e dissimula a noite orgânica em uma fantasmagoria visceral, percorrendo incessantemente o verbo que se desfaz na boca próxima, amortecida pelo seu éter de amante. a rompe feito uma matemática excessiva e depois sela o vazio com silêncio. o que transborda é habitado pelas licenças poéticas, foge aos nomes e às línguas...

ela o sente como o vento que bate a porta...

cinemascope brilhante VI

o vento que encerra a porta, abre arbitrariamente o livro na página do meio. são descritos ali os termos das abstrações. porém todas elas se concretizam em palavras e nenhuma imagem se faz. depois, a página que se vira se torna a ela mesma, como se a continuação fosse única e estagnada pela falta dela. são logo as abstrações eternizadas, contidas num gerúndio babilônico, tão redundantes que a nada se abstrai também.

cansada, ela contempla pela janela um tempo para a monotonia, a séculos de altura, vivenciando sempre a mesma paisagem, a daquele amor sem idade e nem consumo. quase acredita em um seguinte capítulo, talvez o de descer ao futuro onde encontraria o solo para os pés descansar, mas lá do alto pensa no céu, onde sua nostalgia parece mais genuína e a remete às imagens que subliminarmente tingem seus pensamentos quanto aos antigos capítulos.

cinemascope brilhante VII

no escuro, ela vislumbra por outros olhos algo que lhe pertence. é tarde quando o tempo canta a sua existência e penetra-lhe numa incessante intenção entre os sentidos, ansioso por desnaturar os tecidos da sua intolerante negligência. o seu corpo pede mais uma vez um pouco de reconhecimento, como se a insônia lhe obscurecesse o ar e arquitetasse um labirinto de tanta reflexão insólita. nenhuma sinuosidade lhe foi útil porque sempre se deparava com a mesma urgência, circundava em torno da monocromática inércia em busca do seu impreciso paradeiro.

no escuro, ela se espera sozinha, tateando o frio comprimento dos seus pêlos em espanto. nada lhe é mais visível do que a sensação que se causa agora, nem há outra graça além dessa nitidez tátil. ela, então, devora aqueles olhos para não esquecer o caminho que fizera até ali e se perde numa paz ensurdecedora.

logo, o cansaço a envolve para temperar a noite cúmplice que se adia, abotoando-lhe as densas pálpebras e conduzindo-a a silhueta de um sonho...

cinemascope brilhante 8

fugir do tempo era um beijo congelado, e a madrugada púrpura rebentou as hipóteses de um místico amor. mas este não cheirava feito o tempo, somente feria as concordâncias, todas ao frio do vazio, ante aqueles corações ardentes a derramar demasias de um grito sem lugar. quanto mais aquosos e pungentes, surtindo uma lisérgica ininterrupção, menos reparavam na condição do tempo perto de perder-se ao penetrar-se naquelas ânsias, feito integrante da matéria que lhes palpitou sem ruído.

fugir do tempo era perpetuarem-se náufragos, unidos por uma memória imprópria, e a inexistência pôde enfim tornar-se real, como a madrugada púrpura que nunca houvera. mas aquela simbiose ofegante, das vontades dos amantes, poetava-lhes os segundos seculares de que careciam.

ainda o faz...

domingo, janeiro 20, 2008

"onde morre a poesia?"

nada escapa à intenção do tempo, mesmo que os pés andem pelo chão e os dias pelos ares, a poesia permanece e é feito a lua... se hoje ela míngua, é porque ontem transbordou e, indubitavelmente, amanhã se renovará...

onde é só invenção...

cântico sem data VI

momento para concretizar
o que já é concreto,
viabilizar a impossibilidade
de ser o que já é...

cântico sem data V

São sete horas da noite e os ponteiros me servem de diagnóstico
É a vista que se turva para que outros reflexos me sejam favoráveis
Ainda reconheço as formas à minha frente
Mas onde estarei agora pincelando horas que me convém?
Percebi que o tempo não está ao meu lado
Foi este vento que bateu
E que ainda balança os pingentes de metal...
balança... balança...

cântico sem data IV

sinto por aquele sonho desinteressante...
tal qual fosse de papel e se borrasse com a ponta de idéia que se repete
um sonho de tédio!
sinto mesmo,
ainda desperta torno a usá-lo como esboço...

cântico sem data III

o penhor dos sentidos de agosto
confia o peito sobre a pedra irredutível e impalpável
do gozo ao desgosto
da rocha muda e perpétua
que confinada sob a carne omissa
aguarda a erosão de um segredo

cântico sem data II

estou captando a intuição subliminar...

e ela é explícita.

cântico sem data I

maneira de dizer, como os peixes me sobrevoam...
é o vento que os traz e logo os leva em retorno
instante de imperfeição
assim é como me parece a felicidade.

terça-feira, agosto 14, 2007

cinemascope brilhante IX

creio que a madrugada faça isso conosco... um devorar de horas distraídas... eu, implícita na penumbra dessas horas, cumpro a minha permanência inevitável entre a absorta respiração e o gozo invisível, a tudo me atenho um pouco e nada me faz juízo. quiçá descubro lá fora uma nuvem púrpura que me encante mais do que esconda estrelas, que me desenhe ao acaso numa doçura de seda ou numa chuva lírica - daquelas em que se deita para sonhar como o mar. eu não tenho pressa em amanhecer, a pressa é oriunda da manhã, dourada e infantil - eu nasci da tarde, ansiosa pelo poente e batizada sob a lua crescente... creia-me, a madrugada faz isso conosco, um pincelar de olhos desajustados a vagar ao infinito, e talvez nos percamos se olharmos o corpo na cama, deitado, quase falecido; se pecarmos pelo pavor, mas o ofício da dúvida é estar sempre em composição e o “se” lhe ser híbrido de “tanto faz”. pouco importa o que há depois das horas, se há sede ou sorte, ou a morte de uma pequena existência, pois os dedos da noite me penteiam as vontades, e sinto-me toda um esvoaçar de gigantes cegos a mirar pretensos acenos apaixonados de seus olhos vagos e translúcidos. tais quais, por ora, são essas sensações de faz-de-conta, feito um beijo de psiquê na escuridão... se somos eros, não sei, mas a luz não há de ser acesa antes que se amanheça. porque a madrugada sempre fez isso conosco... um demorar de horas distraídas.

sexta-feira, agosto 03, 2007

cinemascope brilhante X

o meu agosto é um cinema
é uma ladeira, uma madrugada
parada, atravessando uma cardinale
com a flor presa à orelha

um plongé de paralelepípedo
uma subliminar de estrela

domingo, dezembro 10, 2006

dissimula-se o que dizem os olhos

era definitiva a forma como me olhavam aqueles olhos castanhos em brasas, querendo invadir em mim os mais aferroados pensamentos dos quais nunca nutri os meus. novidade era estes olhos cercando o hábito que nunca atendi. buscavam nos meus a descompostura espontânea de um susto infantil, algo que se deflorasse com a súbita pretensão do que já ardia de malicia e pressa. e depois conceber dos meus o que os próprios viam dos outros olhos. como provar da sensação minha o que a sensação alheia me provocava. bastava-lhes isto para o controle do todo, confiando ao ato o implícito desejo de conjugarem-me sua. no entanto, como que meus olhos estivessem perdidos naqueles, ali enxergaram o mesmo. e agora é inevitável que eu os tenha igualmente.

terça-feira, novembro 28, 2006

acerto da impossibilidade...

o grito calado sofre de amnésia constante
amanhã nem se lembrará porque existiu
é demasiado tarde quando as palavras são audíveis
o tempo regenera a cicatriz do lamento
porque o tempo arde ao som da intenção

à meia luz todos os corpos são iguais
e todas as manhãs com as horas se tornam tarde
as cores arrastam as sombras pelo chão
ontem parece hoje
tudo permanece igual e nada parece igual
e com um pouco de imaginação é parida a resposta para o desatino

é melhor ferir do que remediar
é melhor chorar do que premeditar

só me preocupa aquele silêncio de pedra
porquanto ela se quebra e sangra qualquer coisa que não seja minha
lateja por outros dizeres

já não os sinto, não os lembro mais...

terça-feira, novembro 21, 2006

sobre a sonoridade do tempo

o meu amor vermelho tem mãos que me tocam com fúria. eu sou a guitarra por ele enamorada, vibrada pelas cordas por ele desafinadas, e nunca adivinho o seu andamento desarmônico. por seu capricho lhe sou o instrumento catártico e passivamente incido com o meu desencontro amoroso. às vezes me emudeço encostada à parede, às vezes me ensurdece suas mãos. o meu amor vermelho é uma decomposição inadiável. dias áridos são estes de uma guitarra desconsertada.

quinta-feira, novembro 02, 2006

composição da pressa

conto nos dedos as eternidades que se demoram
pelas manhãs em que não verso com o teu domínio
sobre os meus sonhos, as minhas agudas poesias
mas silenciosas
porque
grito sob as paredes do meu corpo
o meu torpor imaculado
a sangria, a ventania de uma voz
sólida, acesa e mascarada
a tatuagem em branco
na pele que se resseca esperando
a chuva da tua calma
e a abundancia do teu zelo pela minha.

sábado, outubro 28, 2006

ideando

meu pensamento é feito de matéria frágil, suscetível ao vôo e ao fogo. quando se queima, é sugerido pelo vento outro itinerário.

domingo, julho 02, 2006

o sorriso da fotografia

não somos mais que poesia
clamando a frágil inocência
de sermos efêmeros e equidistantes do fim

esta noite não chove...

vejo um bule debruçado à janela do vizinho
na calma dos seus vapores, ele pensa na chuva que não cai e me oferece uma xícara de chá
agradecida sou, hei de evaporar um pouco desta noite para amanhã
assim o bule me conforta, me remete ao cheiro de terra molhada,
mas seca que estou reflito o céu estrelado e insone do inverno.

rio de janeiro, 30 de junho de 2006.

o que meus olhos veêm é o mundo em câmera lenta, imitando-se desfeito, insidioso,
às doses das dores, que se encarnam indóceis repentinamente nas mãos da paisagem anterior
e tudo que sucede é a invenção, é a suposição replicando ao cansaço a enfermidade do sono,
a hipnose da morte, é a surdez que tateia a própria voz
e parte do que procuro não é normal, nem se conjuga, porque desse mundo só faço abrir o regresso
nada de novo contenta-me a palavra, porque o mundo me devolve ao tempo em que parti
e dali em diante eu já sabia o que meus olhos veêm agora.

sexta-feira, junho 30, 2006

ópera centenária ou inventário

já lembrava da última vez em que chorei, metade em compartilhamento, metade em esconderijo, metade pelo apaziguamento. sim, foi mais do que pude. e transtorno a força dos rumos. os contornos dos ciclos eternos, circundamente inesperados... na hora antecipada. sim, foi mais do que cedo, por mais preterido que aparecesse este instante insólito e disfuncional, porém convincente até a última gota de lucidez. comemoro a interrupção enfim do discurso coerente, engajada no seu contrário equívoco.

deveria me perder antes, mas tarde agora da hora me absolvo das circunstâncias ressonantes. era assim que eu poderia me despir, de nada e um pouco tudo... pois só consigo esconder o que sou.

quinta-feira, junho 29, 2006

ao fim da noite...

é quase uma manhã indigesta esta, não a culpo. o problema não é dela se o meu moral não resiste... basta de histórias, não gostaria de encarar outros olhos de censura, principalmente os meus agora. de olheiras o inferno se incendeia e as minhas me crucificam.

segunda-feira, abril 24, 2006

III

neste fim de tarde, sinto-me como psiquê, submersa na banheira, contando as folhas flutuando sobre os meus sonhos abertos. como uma deusa morta, jazendo feito o sol, que dele só resta uma aresta.

sexta-feira, abril 21, 2006

II

o desejo me pegou desprevenida ao mirar a calçada. te vi fumando com teus pés no chão.
eu não. com meus pés pro ar.

I

eu sou a noite chuvosa
brilhando ao chão
o mundo e eu.

terça-feira, abril 18, 2006

uma razão, uma alusão

então, chega de poesia sem maestria!
não conto mais com as incertezas
quero também um sonho alheio
que me transforme em outro desejo
sem espera
sem demora
só com as palavras para brincar
não é isso que fazem todos?

segunda-feira, abril 03, 2006

fingindo não notar...

quão inusitados sorrisos!
não quereis mais um pouco?
pegueis mais
fiqueis a vontade, deleiteis-vos com o alheio!
pois nada vem ao caso e nem com descaso
são só ventos sem propósito, mudos e fora de hora.
que nunca nada mudaram
e não tem em mim qualquer presença
da máscara que peca o riso
da queda que pranteia o rio, desde um amigo para outro
que se faz custear
a promessa das vontades de março
que se resolve na perda dos olhos de quem me procura
e que abstrai o paladar da língua dos sonhos.
tornastes o escuro daquela palavra
mas agora é ela quem grita
e está de partida como todos
que vem vão e parecem nem lembrar-se das honras.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

atômico platônico

se eu fosse tua, seria eu inteiramente tua, mas tu não me tens porque não me tens, não desta forma...

não se procura uma desesperança...

ouvindo vozes
duvidosas pontes
desconjuntadas
sou um grande inverso
imerso
camuflada
miniatura
da face assimétrica
em composição
improvável
de jeito consentido
contido desentendimento
austral
hexagonal
natural
nada em acompanhamento
vão

domingo viscoso

divergindo–me ao
descentral
sobre-continental

desconcentro
desconserto
descontento
em termos infernais
atemporais
subespaciais

interferindo-me em
tentador
abrasador
toque de fuligem
morta
porta
fechada

22.12.2002

houve os seres, os quereres e os poderes de um sonho interminável. os amantes alcançaram o ensejo de se encontrarem, iam e vinham sem pensar em sair. poetas os descreviam em sua página de céu. eles eram a dança de corpos e libidos da mesma cor. quem sabia o seu nome? tinham lá escrito qualquer destino, mas a cena se transformou. já não eram mais as bocas que lhes afagavam, e o chão transbordava em mãos d’água que os lançavam pelo rio. os peixes fluíam por entre eles pincelando ardor. nus se tocavam ao acaso da correnteza. de alguma música se lembraram depois, pois descobriam o nome daquilo. e foi um anel de palavra que os circundou e os calou. os poetas continuaram a fiar estrelas, aqueles dois corpos entre outros reluzentes por excelência, eles que se esqueceram de um mundo alheio e deixaram os seus involuntários movimentos de seda se perpetuarem naquele instante desvanecido.

quinta-feira, setembro 29, 2005

entreato

levanto os panos
e descubro-me em um papel para esta noite
sem face e figurino
num cenário instrumental
um monólogo sem platéia

instrumental

nada a dizer são também palavras ao frio
tentando aquecer o espírito que tanto pede
abrigo ou pronunciação
não é a espera da réplica
é algum gesto que se assemelhe ao silêncio
desejado não ter-se manifestado

terça-feira, setembro 20, 2005

lamento da confeiteira

é ruim enquanto se acredita na doçura
porque nela também há o amargo
o amargo da sede
do calor
da vontade de tornar-se mais doce
como o vício que perdura
embora inunde agrados
sabe-se que um dia ela finda
e neste dia há de se deixar de acreditar.

terça-feira, agosto 16, 2005

contratempo

textura de alma desafinada
dúbia sonata desconsertada
para dentro palmatória, fora, flora
gritando em disparada o lugar adormecido
e a busca do verso desesperado.

segunda-feira, agosto 15, 2005

o semblante do céu e o precipício de ânimus

pecado.
te soletro na calma com que minh’alma te expulsa,
esta mácula de passagem
pelos polígonos da vertigem-fé.

te abdico com o alento das quimeras
fiando o passo no retorno
ao termo de onde partimos
efeito de que éramos imunes.

mas os versos antagônicos
sempre retalharão
algo de plácido,
razoáveis espécies de analogia,
obstruindo o peito,
que incinerará
a vaidade das noites em sigilo,

porque

de joelhos conjuras o teu íntimo
à pálida fala do teu amor...

quinta-feira, agosto 04, 2005

menos a lua

chove tantas coisas que só servem para guardar
quem nunca ventou assim
o espaço entre as frentes
é colocado de lado na noite vazia
uma vez a mulher me disse
há de esquecer o que for enterrado
eu ouvi
embaixo de si não se julga por inteiro
é quase um objeto quebrado
essa música de todas as vozes
esse poder de estátua
fonte das coloridas águas desnecessárias
dão sorte quando chove outras coisas
e é esparramado o que não é esperado
quem disse sobre o nunca
pode sentar-se e aguardar.

já os cabelos crescem ao contrário
desde que voltamos no tempo.

terça-feira, agosto 02, 2005

quem insiste na hora do dilúvio...

...transparece o cheiro da mortalha