quinta-feira, março 10, 2011

mais quente e mais blues.

é um sopro na madrugada sem dono. sempre parece que conheço essa música, mas nunca reconheço. e insisto em conhecer, e parece mesmo que ela pertence à lembrança de alguma felicidade com você. e quando penso nisso sinto amor, amor que existia mesmo antes de mim, de nós, e que jamais deixará de ser. enquanto este sopro tocar quente não me importa qualquer memória imprópria, acontece o que não existe, e é isso o que fica para todo o sempre.

sexta-feira, março 04, 2011

Habitat

Tenho sono, mas o meu Corpo nervoso quer atenção. A minha. Acanhado e despossuído ele só quer a mim, tem medo que o desconcertem outra vez. Eu o acaricio devotadamente... Se meu Corpo fosse santo eu o louvaria, zelava para que o paraíso fosse nele igualmente. Então, meus dedos o tocam como os deuses concedem graça, e o recriam. Penso nesse Corpo agora não mais como a casa, mas o Habitat apreciado pelo destino por mim descrito numa folha de imaginação inquieta. Corpo, durma que ainda é tempo, é lugar, é forma de se querer. Eu peco, mas também guerreio pela tua vontade imortal de ser o seio do mundo, amamentá-lo da seiva que somente tua paixão compõe. Mas ainda o Corpo fora de lugar, minha flora mal-fauneada, desatenção redobrada, precisa de fé que o vento e a noite não a rejeitem.

terça-feira, fevereiro 15, 2011

diálogo entre musos III

cade?
não te li

oi
leu onde?

ah oi
não, vi uma mensagem naquele número vermelho, mas não li o que estava escrito

isso é meio esquisito mesmo
deve ter sido reminiscência da conversa de ontem..

ah... as reminiscências...

é com i ou com e?
... is offline.
... is online.

acho que com i

é, tem razão..
não tem escrito mais no blog
vc
nem eu..
fiz uns textos fora de data

tenho escrito, mas não postado... não tenho feito muita coisa no feitio do blog (de fazer um solo fértil para a MINHA literatura)
nem sei mais se a MINHA literatura existe
e você, pq não?

poderia colocar uns fragmentos no blog
nada precisa ter muito sentido a não ser que seja pra SER sentido..

eu?

eu não escrevi mais por falta de exercício ou inspiração ou vontade de estar assim

rsrsrs

vc? não sei.. o que vc escreve, eu digo
ser sentido e não ter sentido
entende?

to vendo... ãããããã... sentido, né?
aushauhsuahushauhsuahsuhaushuahsuahsa

hahahahaha
tenho mais é buscado fonte de
insPIRAÇÃO

fonte de SENTIDO

tenho observado o mundo daqui
... is offline.
... is online.

????????
pra inspirar-se basta inspirar... tenho pensado bastante nisso
a vida se basta!

esses dias eu liguei a câmera e me pus a falar de mim

é muito diferente do daqui?
bom...

depois pensei..
eu sei que não vou mostrar p ninguém..
basta! a vida é um cinema na maior proporção

na menor também

o mundo daqui? deve ser..
qualquer mundo deve ser diferente
que o seu

tem uma frase do Artaud que fala que "A arte não imita a vida, a vida é que algo de transcendente com a qual a arte nos põe em contato"
(Meu mundo?) pensei que estivesse falando do seu

a arte para se alcançar a vida.. gostei
faz sentido
é sentido

SENTE-se
uahsuahsuhaushauhsuahsuahusha!!!!!!

ah tá, vc perguntou (eu achei) se o daqui era diferente do "daqui" daí..

ah tá... ããããã o daqui daí, é diferente do daqui daqui (seus)?
é, eu sei que é
só quero saber como está o ãããã daí daí agora
... is offline.

procurando o lugar daqui sempre, né? (send as a message)
Your chat message wasn't sent because ... is offline.
... is online.
... is online.

oi?

oi (send as a message)
Your chat message wasn't sent because ... is offline.
... is online.

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

ENTREATO - E não era sequer uma luxúria de amor

ENTREATO - E não era sequer uma luxúria de amor from floratomo on Vimeo.

direção daya gibeli, victor pessôa rocha, thatiana verthein

cenário instrumental figurado ao final do take 7, sonhos insones, o susto em quando quase se acorda, delírio em cornucópia... divino e verossímil

trilha sonora original daya gibeli, victor pessôa rocha, wilson moreno, guilherme narciso

quarta-feira, janeiro 05, 2011

black is black

a chuva apertou naquele fim de noite e mundo, e ele contendo a ansiedade, tirou do bolso um cigarro avulso, acendeu mesmo assim, que molhasse, que não a encontrasse, depois que perdeu a cabeça e a hora, palavras são qualquer coisa que se faz desapercebida depois de certo tempo, mas ela não esquece, nem quer esquecer, há cada momento a voz rouca lhe pronuncia na mente, implorando de joelhos para que ela o ame ou vá embora, e nenhuma das duas coisas, ela não o amava e nem ia embora, ela queria calma, outra tatuagem no corpo, quando fizesse 33 anos. a noite é outra dessas coisas que se desfazem com o tempo, um pedaço de madrugada, as fotografias eram fiéis, black is black, e qualquer tentativa de amarrar essa mulher em sua vida era revelando o que mais do seu corpo na sua câmara escura avermelhada. agora. antes que o negativo amanhecesse. quero paz nos olhos de quem me espreita veludo. e os olhos já cravados no corpo dela era dimensão.

*foto de jacquelinne goddard por man ray, 1930

sexta-feira, dezembro 17, 2010

A peste

E ela fechou a janela para os morcegos não entrarem, porque nessas noites de verão a peste teima em entrar por qualquer brecha na sua vida. Sentou-se na mesa, os pés na cadeira e chamou por aquele que não se encontrava no quarto. Uma drosophila, no chão, parecia uma estrela, quase a confundiu com uma lantejoula que não brilhava. Pensou em colar estrelas nos cabelos, banhar-se de nebulosas se ainda pudesse. Porque em horas como essa, lembrava-se do que há do outro lado da janela fechada, ali o céu sempre estava ao seu alcance, quando deitada na cama encarava a lua, sua sereia apaixonada. E esperava o telefone tocar, como tocava aquele corpo seu livre da peste. Tocava sem sentir. Sem manusear, com as mãos ocupadas dos objetos pensativos, o telefone, a chave e a música que a contasse outra história. Em vão. Negaria se se perguntasse, mas em menos de meia hora já estaria do outro lado, na força de uma corrente, incoerente, fora da casa e de si.

sexta-feira, dezembro 10, 2010

Amor é irreversível.

Prendi-me à estética do princípio, no meu cinema. Mudo. Distraído. Agora furioso de palavra sem significado. Sensação de que tudo não passa de um ensaio para a existência que nunca chega. Em oito segundos acaba a eternidade.

sábado, outubro 23, 2010

le premiere bonheur de ma vie

no sonho, minha amiga e eu estávamos numa cidade labiríntica, diante de um longuíssimo mausoléu, talvez o cemitério mais antigo e maior do mundo, da história. espécie de egito na américa latina, méxico, machu pichu. mas outro lugar. a grécia. viagem do nosso imaginário. era noite. em casas simples e flores nos seus terraços. eu menstruava. em outra ocasião. alguém falava enquanto dormia, suspirava, murmurava o que não pode ser lembrado depois. na língua do imaginário. mas não me atenho ao sono alheio enquanto o meu ressoa bravo e patente. porque ele estava lá, le premiere bonheur de ma vie. no sonho. pedindo para que eu lhe dê uma forma. mas me recordo somente dos olhos dele virados para os meus. num sorriso de bom dia, princesa e suco de laranja. descubro, acordada, que o sonho é mais antigo que a cidade. e que o labirinto é o tempo. escorre para baixo o bendito tempo e ele diz que não habito mais o meu corpo, pois aquele já é outro.

sexta-feira, setembro 03, 2010

minha autoria

ela está matando o tempo com o amor alheio, vestida de veludo e céu para que as canções de sua cabeça sejam de um outro intérprete.

ela está matando o amor com o tempo alheio, despida de veludo e céu para que as canções de um outro intérprete sejam cravadas em sua cabeça.

ela está matando o céu com a canção alheia, encarcerada de veludo e amor para que o tempo devotado de sua cabeça seja de um outro intérprete.

ela está matando a canção com o céu alheio, liberta de veludo e tempo para que o amor descrente de seu intérprete seja de outra cabeça.

ela está matando o intérprete.

domingo, agosto 08, 2010

patrimônio#macondofeelings

porque ela nasceu, ele fez o mesmo. o pai dividia os seios da mãe com a menina nas noites de chuva, umidade relativa do ar 68%. quando não havia leite, ele cantava, e assim aprendiam a língua juntos. depois dos primeiros passos apontavam as estrelas no céu descobrindo seus nomes. Escorpião e Capricórnio. não havia outra infância tão antiga como a deles, quase perpétua nas tardes do parque de Shangrilá e nos saltos de Ícaro nas águas do aquário do grande peixe. e não havia músicas mais bonitas que as deles. não foram à mesma escola. o melhor professor era a imaginação, uma memória ancestral em comum. os dedos da menina com guache descreviam o que era sensação; os dele, com carvão, desenhavam o que amavam. o que ambos sentiam era a melhor forma de prestarem atenção no mundo, porque de impressão eles entendiam. textura de manhã, cor de água, som de mãe, sabor de dó. mas tão pequenos que eles eram, os olhos não lhes cabiam, por isso se perderam cada qual em seu jeito de procurar a pronuncia dos seus limites. e apesar de terem a mesma idade, o termo do tempo deu ao pai o cansaço da noite, e à menina o sangue apressado e inquieto das auroras insones. palavras a menos ou dores a mais lhos tornaram irmãos distantes, vontade de um pai mitológico que só os juntavam nas horas infantis, um passeio longo entre avenidas, pipocas temperadas com manteiga quando todos já dormiam, ou as teorias das origens dos significados. a imagem dos sentidos foi dando lugar à imagem dos sonhos de espera, um dia o pai disse à menina que acenderia um cigarro para que o ônibus chegasse mais depressa, e ela assim também o fez. o mundo teve que se desfazer de tantos trajetos para que depois que o ônibus os levasse, os trouxesse de volta, mas para um tempo quando o pai de barbas grisalhas escutasse atentamente com a filha de mãos secas o pôr do sol lhes contar que aqueles significados nasceram com eles. vamos tomar sorvete!

terça-feira, agosto 03, 2010

memória#macondofeelings

na casa dos avós não se ouvia um barulho que não fosse o do vento. os olhos de menina atenta procuravam o caminho que o fenômeno seguia, a rede do terraço balançava sozinha, o teto estralava em suas telhas firmes e qualquer porta mesmo fechada insistia em soar ser tocada. ela sabia que cresceria para entender o que faz tanto barulho, mas não se mostra, deveria ser maior do que ela, ou estar tão perto dela e por isso, então, invisível, como o dedo na ponta do nariz que ela não enxergava, mas sabia que lá estava. e se esse vento balançasse os seus cabelos, ela tinha arrepio... não é que o danado atravessava seu corpo e a sensação não era ruim! sorte minha que ele gosta de mim.

segunda-feira, agosto 02, 2010

segredo#macondofeelings

ela percebia tudo por uma janela mais ou menos real. a que permitia através ler e reler os lábios mudos da irmã mais nova. escondia-se por uma questão de tempo, talvez alguns meses de distância, e ainda talvez o dia mais próximo da cena inviável que presenciara. e aqueles lábios lá estavam entrecortando outros, que sabiam ser translúcidos, resolutos de uma língua particular, mas tão clara e pública que suporia ser sentença própria, saindo miraculosamente de sua cabeça. ela tinha a exata definição do que diziam naquele silêncio patético, na mira meticulosa de sua leitura faziam mais barulho quanto traíam a sua natureza. a mesma de se permitirem levianos, e de trazerem consigo o segredo dos meses até ela, a mulher dos olhos de um acaso em frente de uma janela mais ou menos real.

reencontro#macondofeelings

quando mirava o espelho e via outro rosto que não o seu, preocupava-se com o que as pessoas iriam dizer ao vê-la fora daquele quarto. nem mesmo a música do Dylan a faria crer que aquela outra no espelho fosse ela própria, mas de outro ângulo. só se fosse à perspectiva dos ponteiros do relógio que andam ao inverso. quando o tempo passa dificilmente se é a mesma. mas tentou ser a outra. mais uma vez tinha fugido mesmo, que mal havia de fantasiar que hoje era ontem? e não era uma fuga singela, era a fuga da fuga! da cidade para a aldeia, da aldeia para a cidade novamente, mas ali não deveria permanecer, assim que o sol acordasse os outros de lá, teria que ser mais rápida e fugir pela terceira vez! tinha consigo tantas chaves alheias que contavam mais que as suas. nenhuma. ainda bem que não estava nisso sozinha, o seu cúmplice era o desejo de querer ter o desejo de não estar sozinha. e ele estava lá com ela. e era visível também pelo espelho, sobre ela, dentro dela, oscilante e envolvente, como uma onda que arrasta e devolve o corpo para a praia. e se este desejo fosse mais agressivo, imprevisível, ela não teria que pensar sobre, a coisa andaria pelas próprias condições, porque ou se deixaria levar ou acabaria tombando entre as espumas da água do mar em ressaca. não admirava muito, mas concordava, sempre funcionava melhor sob pressão, que fosse sob mil atmosferas, ela não teria que pensar sobre. no dia seguinte, com as frestas de luz, acordou e viu ao lado o desejo ainda relutante, e de tanto fantasiar ser a outra, já a estava sendo. mas se fazendo companhia. na aldeia nada disseram à sua falta, forasteira que era, mas sentiram que ela voltou sem aquela com quem de lá saiu. como se o desejo insistisse ao corpo deixou a próxima fuga para o dia seguinte, porque ela mesma já tinha voltado para a casa na noite anterior.

quarta-feira, julho 28, 2010

fuga#macondofeelings

ela fugiu por acaso, mesmo pretendendo o fazer sempre. de uma cidade a outra era o tempo de um disco, se muito. talvez aquele que recordasse os dias de chuva de uma macondo não tão distante. mas ele também não existia. se macondo era fruto de sua imaginação, toda e qualquer coisa que o remetia brotava do mesmo lugar... mas se era preciso crer em maravilhas, lá estava ela de carona e olhos fechados, escancarados ao vento da estrada. que corria mundos! o dela até o destino. não seria um milênio que a fizesse mais esperar, se relativizava o universo inteiro por que não uma rua? e chegava à rua que se parecia com a sua, lugar onde os cérebros estão o tempo todo trabalhando com ou sem os seus donos. ela só se entusiasmava assim, quanto mais ocupados, mais esses cérebros lhe eram atrativos, e que não encontrasse algum ocioso ou tedioso, pois os descartava como jogos que nunca dão em canastra real, sem qualquer remorso. à porta, olhou para trás, a cicatriz no coração ainda com as linhas da sutura apressada não a inibia de tocar a campainha. e certa de que não havia os fantasmas de percalço... depois de vinte e quatro horas, voltando para casa, ela compreendeu que nem tudo é alimentado de sonhos. se não estava macondo no mapa, ela escreveria ao imperador para que o mundo fosse redesenhado, afinal quem não escreve cartas apaixonadas, também não as recebe. "Alea jacta est".

seca#macondofeelings

diz a lenda que quando os amantes vigiavam a lua plena, contavam causos da ciência e da metafísica para não desconsertarem o que ali havia. eram eles vigiados por outros mais amantes, deles. objetos de curiosidade intergaláctica... que substâncias esses humanos passionais costumam liberar quando fingem amar? dissimulavam a vida e a apoteose. ali sim escondiam o esquecimento quando tornavam mais aparente o risco da chuva que não caía. viviam de seca. rezariam se acreditassem, no entanto mais fácil era se concentrarem no limite entre o que era objetivo e o que se sentia subjetivo. ele e ela. existia ali aquele momento ou a velha lembrança. não havia tempo para os dois. algumas nuvens se apoderavam do discurso, faziam da lua um lugar mais distante, às vezes, quando percebiam o porque de estarem ali, os dois amantes, ela em sua parede, dizia ele, e ele em seu sonho, queria ela dizer. mas era tempo de desanuviar. a lua falava mais alto, lá de cima observava os amantes dos amantes igualmente. e ria muito mais alto, que suas gargalhadas embriagavam, entre as penumbras e as parcas nuvens, os amantes primeiros, que já nessa altura, ou profundidade, sabiam ser objetos. primeiramente, é necessário saber se são capazes de fingir amar?

sábado, julho 24, 2010

guerra#macondofeelings

na cidade, o tempo corria assim, homeopático e custoso, e os monarcas acreditavam que transitar por aquelas passarelas figurava um desafio à gravidade, as leis naturais nunca davam conta da demanda do que o povo, oniricamente, cultivava pelas esquinas. por isso, o guerreiro, com a lança apontada para a moça dos lábios vermelhos, esperava mais que um beijo épico, mas o que lhe era prometido, a noite de luar, cuja ela havia guardado, enterrado bem longe daquela terra para outro cuidar. em véspera de lua cheia, prematuramente, as semeaduras avançavam em raízes e ramos, numa progressão fora de seu normal, e a tal da noite, cobiçada e remota, despontava já no horizonte reluzente, porém longínquo. não vês que me preteres? e a moça docilmente limpou os seus lábios vermelhos na boca do guerreiro contrariado. mesmo não sendo épico, o beijo permaneceu durante toda a guerra selado, e foram necessárias centenas de editores para montar e desmontar os sonhos da cidade para que aquelas terras não se metamorfoseassem, em noites de lua cheia, de pesadelos que os homens construíram em eras numa só lua. mas até que ela se enchesse, a véspera foi atravessada por três minutos em 1.440 quadros por segundo. o beijo foi a melhor saída para que a moça, agora dos lábios pálidos, distraísse o guerreiro e a raiz da sua noite de luar particular não fosse arrancada. por um close up, ela sentiu uma semente de arrependimento, como se tivesse com aquele selo compartilhado da luz daquela noite com o guerreiro beijado, que de súbito haveria de reavê-la, já maculada pelo ato, e não teria ilusão mais cruel para aquele homem diante dela crer na possibilidade de possuí-la como prometido. mas num majestoso plongé, a moça dos lábios pálidos tirou a semente do seu pensamento e a jogou para o alto, sumindo no quadro com um gesto apressado. entrou rapidamente pela porta de sua casa pela subjetiva do guerreiro, que montou em seu cavalo num imponente contra plongé e seguiu seu caminho pelo plano sequência de outra batalha de sonho. corta!

sexta-feira, julho 23, 2010

esboço#macondofeelings

ontem ao mirarmos a igreja, o mundo era o incêndio de sempre em nunca - a noite tem disso, de entender dois amantes alheios, na escuridão de um lugar impronunciável, na espera de que o que não se sabe vire reconhecidamente o que pode ser errado. só nascendo de novo, ele tem razão. mas no que não se acredita é o que existe quando se termina um livro a caminho desse mesmo mundo em chamas. não nos acomete uma heresia... nem no apocalipse das palavras... um padre não sabe para o que reza nessa viagem. estamos envelhecendo de trás para frente, ela diz. o tempo não é o suficiente porque a vontade não é o bastante. talvez o amor seja bruto. talvez a busca seja o nosso chão e céu. talvez nunca exista uma praça como esta hoje. ela é que existe antes de nós. e só para confirmar as nossas confusões, sim, você esteve aqui, e amanheceu aqui logo quando todos os cachorros deram por latir ao mesmo tempo. é melhor não deixar que os sonhos se percam esta noite, eu disse. não sei muito bem o que farei, mas sairei de casa novamente, esta noite, com a sensação de que a continuação é agora...

terça-feira, julho 20, 2010

essas pessoas-gato são ocupadas em procurar e violar a noite como se afiassem as unhas nos dorsos da pelúcia amante, aquela que de hora em hora deita os olhos sobre o tempo de espera. não procura. é presa. sem pressa de ser degustada. porque essas pessoas-gato são precisas em percorrer dentre as minúcias como a amante que prefere que o sangue escorra demoradamente. todo detalhe brinda o elo que se faz mais intrínseco. nada mais perdura que a dependência entre as partes. são correspondências plausíveis de serem unas. da mesma dor de amar e morrer em demasia, gêmea das manhãs que apagam a história, e a perda é um precoce sentimento que de em reverso nasce à falta. mas as pessoas-gato são esparramadas em chão íngreme, derretem-se à luz do que sentem, permanecem rasas enquanto indecisas entre pessoa e gato. é o que acontece quando o escuro é também um suave tormento, silencioso como um sonho que segreda a vontade do estrondo.

segunda-feira, julho 05, 2010

ainda bem que eu sou um dia, pessoa após pessoa...

domingo, maio 23, 2010

retenha-me

o meu espírito vagueia enquanto que as mãos buscam permanência. o corpo ainda desabitado, não o sabe ser, corre em direção contrária; eu, passível olhar, inclino-me ao vazio, componho o tempo.

terça-feira, abril 27, 2010

em toda noite de desconcerto, eu fecho os olhos e silencio mais um século até que todas as noites se quebrem em pedaços menores. quanto mais desconserto menos perguntas estúpidas me faço. aqui fica muito obvia toda noite de discordância. quanto menos me peço menos me dou. e mais ilesa permaneço. não, mentira...

quarta-feira, março 17, 2010

Pourquoi cette changement drastique d'humeur dans le jour? Parfois, je voudrais une belle statue, soulagé et sans tiroirs. Le monde serait le vent qui secouait les cheveux de ma Vénus de Milo à l'envers. Enchanteresse et silencieuse, mais régulière.

domingo, fevereiro 28, 2010

pois que minha fonte concede

água que transborda crua

e leve inteireza de

prestar plena às longas

vias que parto

um sorriso raro em cada

manhã

pois que as programo infantis

eu, mulher de cera

depois das velas esboçadas em

âmbar

não pereço às luzes, nem me

desfaço à sorte

sinto em nada a perda que

faísca

corro os dedos a deitar à sombra

pois que minha pressa

não tem tempo

como a pedra de gelo no oceano

calado como minha ânsia

de faz de conta terminando

a página de um caderno

que sempre terá um espaço em

branco.

28/02/2009

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

A Casa.

A Casa do corpo pediu socorro. Letra maiúscula porque ela é própria. Propriedade devida. Bastou de jejuar. Dei-lhe alimento. Dois pratos de macarrão com molho de tomate. Já era meia noite. Enquanto eu penso, ele existe. O Corpo. Às vezes ele sente. Vontade de correspondência. Queria mimá-lo como se ele fosse meu gato de estimação. Acariciá-lo a barriga, coçar-lhe o pescoço e dar leite todas as vezes que fizesse manha. Mas sua dependência o impede de ser meu gato de estimação. Nossa relação é quase sexual, ele na sua forma animada de mulher, curvilínea e quase sedutora, e eu, amorfa consciência inteligente, contraditória e quase determinada, vivemos um embate curioso em direção a uma simbiose que nos faça única. Seria um casamento ideal se não fôssemos quase. Eu desconfio do Corpo, e ele se desmantela na minha imprudência. Em verdade, somos dois inconseqüentes. Ele e eu. Mas Eu não admito. E muitas vezes, não o admito. Preguiçoso que é, segue os mesmos passos que eu planejo. Culpo-o de não ter a minha consciência? Seria mais fácil. Descontar nele o que não posso pelos dois. Ele executa o que mando, exceto as vontades próprias, as animalescas, das quais muitas vezes me convence antes mesmo que eu as atine. Por isso desconfio dele. Não é sedução, é cópula.

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

entreato - e não era sequer uma luxúria de amor
cenário instrumental figurado ao final do take 7
sonhos insones
o susto em quando quase se acorda
delírio em cornucópia... divino e verossímil

domingo, fevereiro 14, 2010

quem emite o quê.

um hábito de se concentrar em sons. sua voz, dedos, água. parar de atuar como um grave, dar incidência a um fino ai... neste ritmo em que o sangue transborda, sentimos aquele músculo batendo em suas paredes todas as pressões intencionadas, resta uma gota baixa.

toca-se o chão, não a corda.

você ouve a que batida? o som continua adiante, nossos pés, nossos cotonetes... ninguém vai ouvir mais alto do que você. teria trazido o silêncio do surdo, mas a correnteza haveria de levar consigo qualquer incerteza, que se emudecia.

um ato sonoro perdia sua direção e meus sussurros atravessavam a janela. chegariam a afinar o atrito de outras gotas... mas não ouse a girar o botão. o problema nunca foi...

...O VOLUME.

14/12/2000

eu e o poeta

olhos pelas frases... que engraçado, achei que me olhava pelo espelho. que esperança... minha boca em seus versos ficaram como frases nos meus olhos... que perdida memória esta que haveria de não existir, a não ser pela boca alheia. a musa que não sou com a mesma nostalgia de querer inspirar bocas e línguas em nós presentes. que entusiasmo? aquele desejo não sai em cores pelas linhas; “diga-me, toca-me”, mas e as rimas? nossas silhuetas estão em suas mãos... desaparecem com a luz acesa. quem? eu e o poeta.

21/02/2001

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

era de peixes

com os dias vou aprendendo, se sou capaz de amar. pergunto-me se é possível tanto? e a resposta é maior, teria eu mais vidas ainda para relembrar os sentidos que me trouxeram até aqui. até peixes, por favor!

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

chá verde

hoje, ao final da tarde, estive eu desenhando os desconhecidos ao redor, sentado à mesa do bar preferido da rua augusta. e ela era uma ruiva só, sob os óculos escuros e os fones de ouvido submerso numa rua augusta que alguém jamais descreveria. espalhou-se pela mesa, nos objetos e nos hábitos de quem está de passagem ou à espera do que não vai chegar. acendeu um cigarro de filtro amarelo e pediu o telefone do sujeito da mesa vizinha... clarice foi quem atendeu... quer-lhe encontrar, mas ela não sabe se é clarice quem espera. se estivesse mesmo naquela esquina da augusta, ela encontraria qualquer um, mas a ruiva parecia imitar seus próprios gestos, sempre como num deja-vù de tudo o que é e fez. desenhei-lhe porque ela é imperfeita, porque se reveste de uma ânsia silenciosa e tinha sobre a mesa um guarda-chuva verde. ela foi uma cena de cinema que ela mesma provavelmente escreveria, quieta em preto e branco, revelando somente as cores do seu cabelo e do guarda-chuva.

13/03/08

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

monólogo sem plateia

devo desistir desse vício antes que me enterrem por sua causa. minha Diana não está à vontade com ele, não aquela Ártemis das florestas que circundam o meu rio. ela é solitária, mas quer acreditar que não é. ou então que se basta. que não precisa acender um cigarro para aquecer a alma. para se fazer companhia. não lhe basta sonhar com o muso da vida tocando suas folhagens, ela espera que os seus passos se entranhem naquela terra. que a eternidade transborde daquele rio. Ela.

sexta-feira, janeiro 29, 2010

ludíbrio

quanta besteira a lua me fala, despudoradamente, ao pé do ouvido, que sou princesa sua, com a boca velada num selo, sêco o beijo; promessa de que toda sou, plena feito ela, feito as musas de cera, de mel e pólen e carne; ouvi dizer que arrancaria meu coração e o comprometeria à tempestade, de ferro e infrequentável, o vento sem medida; não sou fogo nem água, não falo nem penso. sou o silêncio desse vento só.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

estou falando do amor que se esparrama pelo chão, inunda e carcome os móveis da casa do corpo... doente, e que espera, paciente, todo este amor esgotar.

sábado, dezembro 05, 2009

mas não há tempo que me traduza
com tanta efemeridade no mundo
fui logo me apaixonar por uma eternidade

sexta-feira, dezembro 04, 2009

o silêncio quando não ousa só aumenta a tensão...

sábado, novembro 28, 2009

quebrado o coração, ele disse que voltaria para conserta-lo, quando buzinaram à frente, ele saiu, mas eu sabia que ele voltaria a quebra-lo.

sexta-feira, novembro 06, 2009

este é o retrato falado de uma mulher que não fala por ela

quinta-feira, outubro 08, 2009

de curiosidade morreu um gato..
de frente ao espelho..

quarta-feira, setembro 30, 2009

talvez do alto da montanha eu me conte estrela, simples e autônoma, e quando tudo virar pó, recepcionarei a grande nebulosa rebenta; eu, orgulhosa da quimera mais natural, começarei tudo outra vez em 22 de dezembro de 1978...

sábado, setembro 26, 2009

uma rosa hereditária

pensar alto a geração segregada entre loucos e sóbrios é a tentativa de temporizar o que a modernidade delegou aos seus... espaço para digerir as relatividades... mas é tudo sinônimo de idade média entre os dentes, quando a fala é pura subjetividade das bactérias que há em nós. faz tanto tempo, mesmo assim... porque a nostalgia é para os fracos, ambição daqueles que sequer vivenciaram o possível, toda uma preguiça da humanidade em ser ela mesma... alguns de seus dias são feriados; outros, puro ócio de consciência. não há nada de errado em nossos alter egos, eles até bem disfarçam que o mundo fora feito no meio das coxas de uma deusa, que entre uma lua e outra se reveza em mãe e puta, e também que, enquanto não está tricotando paixões, molesta aqueles cadáveres que ainda não caíram em descanso. fetiches de deusa... mas os dias também estão em conta de outro agiota: você que passa a década a ser motivo para alguém se creditar... há quantas anda o seu real? ou se basta pelo virtual? você é o gato no muro, observador do placar do cio entre os ratos, longe de se encantar pelo mundo, hiroshima não chegou à sua casa, pois já a tinha vendido para o outro agiota... quando muito, decidimos ser deus entre louco e sóbrio, a querer competir vaidades com aquela deusa que dispensa as muitas cerimônias e grita mais alto porque são dela as fogueiras e os crucifixos onde ardem os mortais. tudo porque você vende seus diplomas para quem acha ou não humano. para alguns a estrada acaba num muro alto, para outros sempre lhes há uma porta para se utilizar daquela chave bem guardada. um dia darwin me perguntou “o que será de nós em, pelo menos, 10 anos?” e eu respondi, “um novo cogumelo...”

segunda-feira, setembro 14, 2009

vontade de noite em frança

naquele antigo dia de outubro eu deveria ter feito a escolha... infelizmente, hoje é só um erro de continuidade..., tu me fizeste sair à rua a qualquer procura, porque de ti mais nada espero, definitivamente, de todos, eu prefiro o meu hermetismo..., vi o vento arrastar as latinhas pelo chão, um lugar tão distante, a praça estava já embriagada, dormindo no seu próprio banco, e eu ali na esquina dos que sobem ou descem, à essa altura para qualquer lado de rua, olhando uma calçada longa, porém nua, já imaginando uma mentira tua, a casa de alguém que te abriu a porta, a tua sina que eu sei decor, mas em verdade eu fui ali comprar um maço de cigarro para escutar l'hymne a l'amour, que não mais rima com dor...

terça-feira, setembro 01, 2009

abstinência

é tanta madrugada
fantasmagoria cúmplice
pelo crime da ira
os olhos abertos, os sonhos em falta
esperando florir em setembro
o não que cabe a todos
mas o vício não se despede
por que o hábito ainda me veste?

rezo por haver outra possibilidade
os milagres são qualquer coisa da fé
que cega não corta nem o pedaço de pão
o ar que não passa, não faz diferença

as horas me balbuciam, sou algum instrumento de corda
tic tac em silêncio, um eterno agora,
uma agonia manifesta...

é uma espera blasè...

talvez já tenha passado mil anos
e eu reparado que o inferno só é lembrado
quando é tarde demais para se dizer noite
ou muito cedo para ser um bom dia...

terça-feira, agosto 18, 2009

por isso eu permaneço o quanto mais distante do lúdico, esta noite quero ser real...

segunda-feira, agosto 17, 2009

i want you so bad

um pecado experimentado, mas insípido. e depois a minha pele, invisível na fotografia, mas úmida na febre alheia. estávamos em jejum.

não de nós.

quarta-feira, julho 29, 2009

os sonhos não mais substituem o que não tem nome,
mas o que tem fome...

quinta-feira, julho 23, 2009

A língua e a bainha

Não restarás louca como um rei
Num labirinto de sonhos e temporais
Não sofrerás pena
Nem terás tormento e fúria dos mitos da escuridão

De teus roucos mais secretos
O teu fogo na dureza da manhã
Mudará em cinza

Terás lençóis claros
E os cristais todos no meio
Com a marca do teu brasão

Sete espelhos das canárias
Dos quintais do fora louça de Aragão
E aventais negros

Não temerás sonhar como um rei
Num labirinto de gritos e temporais

Nando Carneiro, Geraldo Carneiro, José R. Resende (A Barca do Sol)

sexta-feira, julho 10, 2009

desprazer ao fazer de conta que não dói,
o estômago revirado, uma escarrada na alma...

sexta-feira, junho 12, 2009

um diálogo entre musos II

i had a dream...
leva consigo o que não cabe no divino
a lida da menina agigantada
o homem cala
o menino grita

ilustração:flor ; texto:pessôa

domingo, maio 31, 2009

PLANO - SEQUÊNCIA/INT./PLATEIA DO TEATRO
Black. FADE. À medida em que a imagem vai se fazendo, vemos o carpete vermelho sob os pés de sapatos e saltos cristalinos. A câmera é bem baixa e avança por trás desses pés, que vão subindo a escada central entre as platéias do teatro. Num certo ponto, pés descalços e masculinos passam pelos primeiros e a câmera acompanha estes outros que descem as escadas, agora de frente, em recuo e subindo levemente para a descoberta do personagem: as panturrilhas nuas e bem torneadas; as pontas do fraque aos joelhos; os pêlos púbicos desamparados; as luvas, os botões e a bengala; o peito e a borboleta da gravata; a barba por fazer; mas os olhos e a cartola de um lorde...
A campainha do teatro soa.
Câmera subjetiva/meu ponto de vista: o homem sorri e se dirige a uma poltrona da platéia esquerda, eu o sigo e sento ao seu lado. As cortinas estão ainda fechadas no palco, as luzes se apagam, paulatinamente, de trás das platéias para a frente. FADE. Black.

sábado, maio 30, 2009

a pressa que a calma se instaure em nós...

sexta-feira, maio 22, 2009

- tudo bem?
- tudo... tudo inspirado no meu manicômio ancestral particular...

segunda-feira, maio 11, 2009

é de secura o beijo se não entendemos as nossas línguas...

segunda-feira, abril 13, 2009

sigo imitando meus gestos, próprios

sexta-feira, março 13, 2009

vida canhestra
on the left
turn esquina poenta

segunda-feira, março 09, 2009

toda segunda-feira amanhece clara por alguma razão que me faz amar ou acender um cigarro.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

esta noite não chove... II

o espelho trincado olhava para ela,
indagando e repetindo seus traços entrecortados pela rachadura.
procurava qualquer reação nela a partir daquela compenetrada,
fixa num pedaço em branco de papel.
nem sequer ela se movia,
era puro enternecimento perante o nada.


pensava em que aquele reflexo?


e aquele outro?


eles esperavam alguma lágrima lhe sair dos olhos,
mas tão crus que se encontravam só puderam esperar.

por que esta espera tem um gosto tão doce?

terça-feira, fevereiro 24, 2009

persefonificando


a sorte me espanta os nomes,
nomes que se dão às coisas cabíveis ao sentido humano,
às coisas que deveriam participar dos dias,
ainda que bem no íntimo.
mas em toda e qualquer medida, eu não me encaixo,
mesmo contando ser privilegiada pelos sangues azuis e retóricas finas,
sublime como o nascimento da deusa ou o delírio do diabo.
diferente,
como no silêncio, a vontade se
parafraseia e eu me calo
doente de amor.
remedio o veneno
com a introspecção.
nem a mim destranco a porta.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

baile dos simulacros


no sonho, a tua boca desenhava a minha em tons de desatenção. tu, que eram tantos, cego nos traços, fazias da minha saliva um canto para o rei do que é inefável, aquilo que me tirava o chapéu à dança. e as mãos, que eram ainda as tuas, faziam enlaçar outros dedos aos meus numa valsa dúbia entre as faces que me desconheciam e os poros que me alcançavam... e eram os teus sempre, curiosos de abstração. deixava-me aos olhos lançados feito modelo que pousa com um assombro leviano, um simulacro semivisível das coisas secretas de amor, ainda que fôssemos palpáveis para a conveniência do universo. e eu apreendesse tudo o que nos permitisse, tudo o que um beijo inquietasse.

o sonho soava uma promessa...

mas, eu, entidade desperta, como quem padece da memória, desfiz-me à aurora, logo surpreendida pelas tuas inexistências.


quinta-feira, janeiro 01, 2009

lua em vênus

evoco a tua face até me constar divergida da realidade, como se me tocasse um sentimento alheio por me interceptar: não pise por onde não há caminho! e os sapatos novamente se vão. descalça percorro eu toda a senda por um fio de equilíbrio, alada em vigílias que me carregam para longe de um corpo, desatento, que grita o teu nome... caso fosses tu o movimento que me faltasse àquele corpo... ao relento, ao entorpecido fato de existir às vezes, quando se espera ao menos um sorriso, uma simpatia do acaso.

quinta-feira, dezembro 04, 2008

lilith. todavia...


sábado, novembro 15, 2008

idade do amor lascado



uma mala na porta e o mundo tal o que éramos

antes das velas nacaradas de junho, antes do real maravilhoso,
antes mesmo das religiões e dos blues cósmicos!

era de pedra que alimentávamos nossos ócios
sem saber nos existir
sem contar dias de bombons de uma fada doméstica

naquele tempo em que não se forjava poesias em improviso
quando mãos e olhos eram ainda de menina
e o cigarro era um prazer solitário
enquanto as manhãs virgens e claras
se dividiam entre os paralelepípedos prateados e uma árvore desconhecida.

ainda os renascentistas pintavam uma baía de sempre,
uma ladeira santa era paisagem para os planos de sol,
os amores eram rebentos balbuciando na varanda
e as madrugadas pertenciam somente às bruxas

depois,
nenhuma correspondência do além-mar inspirou cócegas
e nem chá com camofas se tomou

porque não se falava em voz baixa
e nem se tinha medo do medo

mas...
como nos tornamos metais, a mala na porta
significa que não nos amaremos mais!

quinta-feira, novembro 13, 2008

minerva de pecado (ou solo de um eco)

minerva, vieste a passeio na busca de um intelecto, cheirava a tédio todo o percurso.

catavas as saudades e outras poesias entre as horas que te penetravam... mas havia o termo exato para que te confundisse contigo mesma.

foste achar a memória da lógica, contas de subtração na adolescência.
risos deste de nervoso, minerva, cheia de espinhos na consciência.

orientes psicossomáticos vinham a te chamar uma atenção.

pediste silêncio aos teus passos; caíram na sombra da ciência todos os frutos de tanto te elucubrar.

escutou-se o pulsar da imaginação (segredo) em preto e branco, eram contrastes em outra língua.

por um instante, minerva, sentiste encontrar a saída, mas o teu labirinto já se multiplicava...

comum destino este de vagar por estranhas entrelinhas nas quais não se é permitido perscrutar.

terça-feira, outubro 14, 2008

dama de caos

ainda é tempo de me derramar na preguiça dos teus quadros, semivertebrados, confiados à penumbra e ao tato de uma seresta incolor... fiz de mim uma aquarela de chuva e no mais, esqueço o verbo e a predileção, encantamentos que me rastreiam em sonho de ordem... e na desordem das águas, me desfaço em traço estendida numa câmara escura sob o olhar de quem me espreita uma janela imóvel, dissolvida no tempo e na razão, mas quando me perpetuas, encontro no vão do sempre algo inominável, de sutil substância que convém aos mortais, e nessa inverossimilhança me pontuo ser de vigília constante e breve em terra além, e nada mais perdura como o intento de uma paisagem escorregadia, me desenhas uma musa de fato, me fias ao outro lado do espelho

quinta-feira, outubro 02, 2008

teias tecem aranhas tais

teias tecem aranhas cais
teias tecem aranhas ceias
teias tecem aranhas cheias
teias tecem aranhas mais

domingo, setembro 28, 2008

fala

como pude ter me tornado tão cruel... abomino que assim me sejam, e chamo-lhes de cachorros por língua alheia, dou-lhes à boca o nome. não me recordo, mas eu já deveria ter acertado as contas com deus, ou será ele quem me aguarda com a sentença interminável. pois meus pecados e eu, percorrendo aquela avenida silenciosa, estaríamos de acordo com qual destino de sugestão dantesca? e reparando naquele vazio enquanto caminhávamos, era precisa a derradeira palavra, já antevista, jazida incertamente entre uma submissão e outra omissão, variavelmente carnal. por uma persistência desobedecida, uma catarse incontida, uma cadência de repetir os mesmos maus gestos, também um vício de mau gosto. não meus... é inútil, sempre errante, por toda a eternidade.

o que os olhos ardem, o espírito palpita em horas claras, assim que ofuscam qualquer clareza que lhe seja imprescindível. às vezes, sinto chorar em mim o quebrar do tempo em coisas passadas que não mais se fazem sentido; faz-se, por conseguinte, um derramar de memórias anônimas. esqueço até o que virá acontecer quando assim me reverbero num ponto de fuga caleidoscópico, sem fresta, nem aresta. o pôr da lua, se não chega a ser um parto de dor, quase se perpetua num contrato de cegos, acorrentados uns aos outros, trazendo instantes de não se sabe onde para não se sabe quando. mas isso é inerente a todos que não sabem o que fazer com os ponteiros insones.

quinta-feira, setembro 18, 2008

quinta-feira, 18 de setembro de 2003

encontrei um banco de praça dentro da labareda de vinho que tomei ontem com uma velha amiga. sentadas nele enrolamos rochas de outrora alegres como os anos passados, longos e distantes. – ontem mesmo escutei este disco... – ...ainda me lembro daquele cílio que ficou no dedo. – a história continua assim.

a noite que chovia molhou o mundo inteiro, saí ao frio para aliviar minha sede. ouvia-se o som da capoeira na rua em que moravas. sentei-me à porta e desviei a atenção para o cachorro uivando de saudades de quê. o tempo se cansava e afastei-me de mim, corri sem voltar os olhos, o chão ia desaparecendo enquanto eu caía no profundo corpo. tua janela sempre aberta se fechou para o cachorro uivando de saudades minhas. eram o tempo e os olhos do cão. tentei me secar, mas ainda me retém a umidade de tudo.

durante a sessão, ele pensou que nunca mais voltaria àquele cinema, nem mais assistir aos filmes que também passavam ali. faria greve das vontades do mundo, o fim da graça daqueles anos mudados pelos girassóis que distribuía entre os amigos. depois pensou em arrumar as malas e contar as montanhas que encontrasse pela estrada, voltando para o lugar que jamais teria novamente. não teria o mesmo sabor, e o tédio o dominaria sem preguiça. a lua é a mesma, enfim, teria a paisagem da janela de sempre.

quarta-feira, setembro 03, 2008

Delírio Náufrago

sorriso náufrago
instantâneo instintivo
peculiar náufrago
malogrado perder-se espontâneo narciso

inspirar enamorar-se
desenho náufrago
vida exterior
impulso imerso líquido

percorrer atmosfera
espaço cósmico
cortante náufrago

quando existe irreversível
escuro espectro
devanear-se fantástico

fato fábula
mito náufrago

inebriar-se singular
calar-se face serpente
remoto náufrago músculo

inefável fluido
diáfano ruído

derramar-se peixe
oscilar-se ósculo
maleável denso
desterro temporário

oriente náufrago

oráculo ermo
sombrio áspero
vestígio náufrago

radiante efêmera
a duração do silêncio

o espaço entre linhas escritas
inolvidável devorar
insaciável vazante
delírio náufrago

(Daya Gibeli/Camila Marquez)

domingo, agosto 31, 2008

um aceno de quem fica

visitei minha morada. estava intacta pelos furtos da prole, diferente perspectiva tinha o cenário de minha vida. eu, ainda vestida do sono, parecia não ser a mesma pessoa que ali adormecera. das luzes amarelas restavam o perfume das angélicas e o devaneio de uma santa. acordara num improviso de lembrança, para resgatar o laço da missão, não fizera outra coisa que sonhar com ela. não esqueço das velas que choraram durante a viagem, dos passos que me acompanharam e dos ramalhetes que me presentearam até que enfim.

domingo, agosto 24, 2008

poema de desintenção

à fronteira de horas
eu, sensação de maçã
coincido com a invasão de amanhã
jugulada numa trança de auroras

terça-feira, agosto 05, 2008

domingo, 03 de agosto de 2003

que desejo de domingo expectorante para aliviar as expectativas dos dias de simulada libertação. talvez eu precise soltar os cabelos, tirar os sapatos e cantar uma música que fale alto aos ouvidos desatenciosos deste rumo em que vou me atualizando. basta de pensar suposições, os acontecimentos vêm, assim, inesperados, e nada adianta esperar por aqueles anseios sem nexo, a verdade é transitória, nada será como está agora... enfim, chegara o mês para os cachorros invadirem nosso cotidiano aos gritos e ventanias. cuidaremos por não enlouquecermos também.

quinta-feira, julho 31, 2008

domingo, 13 de julho de 2003

ai se Deus existisse...
daria ao tolos um sensato castigo!

salve a Mãe que tudo pariu!
que Ela ainda esteja no meio de nós...

quarta-feira, julho 30, 2008

sábado, 05 de julho de 2003

um disco tocando na vitrola me lembra as tardes de julho de outrora, o vento correndo pelo quintal e aquele grito frio vindo pela janela... foram os anos que se formaram numa década, em duas, três, e que sem se perceber levaram alguns e trouxeram outros tantos... as ruas e as casas se assemelham ao tempo... a maneira como essas cousas vivem é de um movimento peculiar. o tempo desgasta, invisível aos olhos, diferença que só grita ao espelho ou às fotografias em preto e branco, nas texturas e nos conceitos obsoletos...

ainda penso se existimos para lidar com as lembranças das tardes frias de julho com esta nostalgia impreterível.

nada além do meu desejo anti-horário...

sexta-feira, julho 11, 2008

terça-feira, 17 de junho de 2003

não tenho a mínima idéia para quem escrevo. exagero. talvez haja uma vaga suspeita. para mim, sempre... porém já ultrapassei o diálogo só, já percorri o sentido da expressão, já escrevo o que não sinto mais. não é mesma a coisa. alguém entende: agora a mão é leve, logo tudo pesa em dobro? quem me acha na contradição? alguém me acha, sempre me encontra... que irônico o fato de não poder falar com o mundo pela voz. fazer uma cena verossímil. necessito de que os personagens retornem à vida, vestidos de alma e posição. detesto esperar pelos outros. minhas mãos não agüentam as palavras por muito tempo, elas têm que se abrir, sair, mover algo menos pesado do que estas que discorro sob músicas que latejam o que nenhuma criatura entende...

quinta-feira, julho 10, 2008

sexta-feira, 13 de junho de 2003

esta noite envolve a lua, que cheia faz-me pensar azul, claro feito água, é a nudez da minha alma diante do mar de secretos ensejos... palavras mágicas são lidas sobre um papel que vem de longe, e sob esta lua, que cheia, faz-me pensar perto... este dia envolveu a essência e a poesia, sentimentos que passam por aqui às vezes e voltam ao lugar onde respiro, mas não vejo. não importa. eles existem, constam na música, meu ouvido que escuta o som do ar, da vida em evidência. esta noite envolve uma certeza.

quarta-feira, julho 09, 2008

domingo, 08 de junho de 2003

que desmantelo foi o seu grito neste dia de nuvens sufocantes! sabia que era desnecessário e, no entanto, soltou-o aos plenos olhos vigilantes do mundo sem fim nem piedade; irritou-se com as palavras azuis e trancou-as em seu quadro negro. as cores novamente... é porque são elas que nos sentem . qual a cor deste grito? ele indignado hesitava em sair, mas era de praxe que o seu egoísmo tenha prevalecido à boa vontade...

o silêncio, por vezes, é mais atento.

cuido das minhas palavras e a reciprocidade é bem vinda nestes dias de nuvens sufocantes.

por gentileza...

segunda-feira, junho 16, 2008

quinta-feira, 05 de junho de 2003

contudo, algum dia ainda darei gargalhadas desta passagem ao lembrar. não mais precisarei debruçar o pensamento sobre mim para proteger-me dos atropelos. nem o inventarei para aceitá-los. é de um cansaço construtivo que reclamo agora, embora este se faça necessário para os dias de lucidez que retomo com clareza. ou os tenho com clareza daqui em diante. ou tenham eles me tomado para a continuação da clareza enfim. por hoje resta a paciência, uma prudente ansiedade que se entrelaça aos meus sentidos, desaforados e imprecisos.

uma xícara de chá para acalmar os ruidosos dias de trabalho, por obséquio...

quinta-feira, junho 12, 2008

diálogo entre musos

embeba-me a calma
inculta-me a noite
necessária aziaga de sonhos
doces que deflorem
se a gente acorda,
que durma o amor ao lado
flutuante em vigília, alado

- a minha carne parece, às vezes, fibras de metais...
- feita de metades?

(flor e pessôa)

segunda-feira, junho 09, 2008

quarta-feira, 04 de junho de 2003

qualquer frase... queria dizer o que ando pensando, mas você já deve saber. nesta noite tudo soa menos doloroso. vejo verde, sinto lilás. o coração pode ainda estar sangrando e a cabeça compondo miséria, mas você já deve entender que nada disso será em vão... seja qual for a intenção do tempo, valeu a pena dizer qualquer frase que me remetesse a você. seja ela de qualquer cor...

segunda-feira, junho 02, 2008

domingo, 01 de junho de 2003

caminho lento e profundo em busca da minha própria cabeça. tento dar um basta aos vícios que me devoram e me tiram do real objetivo... qual! aquele de viver mais de cem anos de lucidez e paixão... mas por um instante vi que nada seria verdadeiro se eu não cresse na jornada que me cobra sobriedade e razão. disse-me você, hoje, que talvez (talvez, palavra minha inserida no discurso seu) eu fosse a única pessoa lógica do mundo. talvez você acredite nisso por não conhecer o meu. em verdade, não existe sequer uma lógica neste lugar. talvez eu tenha uma certa matemática instintiva que me mantém viva... talvez eu viva os anos que não sei como contar.

segunda-feira, maio 26, 2008

sexta-feira, 30 de maio de 2003

nesta manhã, sonhei músicas, numa casa - labirinto de portas e corredores - e um amor atemporal. eros reverencia, toma-me aos braços. como sempre. ele só me é presente íntimo da falta minha de lucidez. quando menos espero, penso dormindo, danço acordada com as pálpebras encerradas... é o nada. enganam-me estes lúdicos ensaios da vida que programo sem os querer em minha psique. sei que ele me é inacessível, um beijo azul que nunca se dará...

sábado, maio 24, 2008

sexta-feira, 16 de maio de 2003

uma criança distraída ao pôr do sol, imaginando delírios de uma vida cor de rosa. sim, quisera eu ser mais uma vez, porém já me pertenceu este momento e nem percebi de tão distraída que estive...

sexta-feira, maio 23, 2008

quinta-feira, 15 de maio de 2003

um dia após o outro. nada mais resta daquele sonho que esqueci quando acordei. a lembrança dilacerada foi o que ficou, penumbras de uma ação em fragmentos não lineares, desnecessários ao entendimento. peço um instante para a concentração. os elementos em questão se desfazem e não sei se quero recordá-los. conecto um diálogo só, os signos vêm e vão, e em nada me alivia a comunicação. difícil é lidar com o silêncio ensurdecedor. prefiro andar com o tempo, antes que eu me perca também...

sábado, fevereiro 23, 2008

paradigma da tempestade

é com gosto de tédio na boca que no tingir da tarde em cinza eu escolho as palavras para não ser engolida por mim. percorro a atenção no disco que gira, gira na vitrola e em nada me faz supor a interrupção dessas horas de vigília pela minha inquietação, a mais subordinada intenção de estar respirando o vazio das cores, eu busco o fim do fio da espera. arrepiam-me os sonhos que ali deitada na noite sem querer os tracei, os vivenciei. tão distantes mas conseqüentes dessas passivas paredes que me acolhem do breu do mundo. do tédio das águas, das telhas bombardeadas acima de minha cabeça, ardente feito a brasa do cigarro desesperado por mim. é de sono que me comporto na vida desta tarde, prometida às tarefas existenciais, antes esboçadas pelas páginas do jornal íntimo de amanhã. mas temo mais o trovão da branca agonia, e o grito de deus, dedilhando em meus nervos; uma musica que sobrepuja o seu pranto é o conforto que por ora o meu vazio suplica.

tempo em descaracter

quero dizer, às vezes, posso no escuro
às vezes, encontro-me com os olhos abertos
o que quero ver é
que todo o espaço teu
não permite o mau tempo...

domingo, janeiro 27, 2008

perfume de maio

as tardes de alecrim estampam na fotografia a placidez da tua companhia
que ficou atrás de uma translúcida cortina
descosturada como aquele tempo
esquecido, pendurado num galho de pensamento desbotado
um triste lembrar amarelado
mas preciso de intenção
que deixou qualquer música gasta pela agulha
da paciência ou dos óculos depositados num livro fechado
desconcentrado
que sangrou um amor vermelho e opaco
e nenhum medicamento influiria
nenhuma outra tarde seria tão lírica
mas os dias contam em regresso para que venham outra vez
sem a tua companhia, para que nada falte

as tardes de alecrim nada estampam
nada aludem, nem inspiram

as tardes de alecrim nunca existiram

sábado, janeiro 26, 2008

na véspera da febre,

cantam o lamento das bocas de vênus para salientarem um silêncio,
os personagens dos olhos de vênus para lhe desenharem no espelho.
porque é noite na precisão de vênus.
e no escuro o desejo é imensurável.
como essa ardência da lírica de vênus.
como todo deus.
mas à luz,
cantarão os suculentos sonhos da forma de vênus para não descobrirem-na deserta?
o derrame das espumas de vênus é um grito que se ausenta.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

cinemascope brilhante I

o diamante atravessou a ponte do rio e coincidiu com a fábula da árvore preciosa.
foi mirando a ostentosa com um paladar indiscreto e direto à palestra:
- mas que vontade é esta?
apontou a maçã.
- agora ela é demasiada tardia. te provarei somente amanhã.
a continuidade do enredo não era um fato, ele sabia.
mas coloriu o segredo e se referiu ao próximo ato.

cinemascope brilhante II

foram as horas
e o rio

o tempo
se refletiu em outro instante
o brilho
arrastou sua vertigem para adiante
a maçã
insistiu um abraço de copa

e a manhã foi uma mordida precipitada.

cinemascope brilhante III

eis que a sábia fala ocorre à sombra...
onde jaz uma dúvida.

remota dúvida.

- agora provada irá ter com o mundo e o eterno?

cinemascope brilhante IV

se a dúvida é falta de respostas
a escolha é a perda de algumas delas

que sejam as vísceras, a torre, os olhos ou os sonhos...
os dedos para contar e os lados para medir

foi a esta qualquer intenção que o diamante se deixou debilitar
não permitia ao corpo a emancipação do seu costume
e nem à intuição a rebeldia do seu sangue


paciência...

eram quatro ventos que lhe sopravam a mesma tentação,
porém cada qual em distinta direção.

cinemascope brilhante V

ele antevê o derrame da lua que se esvazia, e dissimula a noite orgânica em uma fantasmagoria visceral, percorrendo incessantemente o verbo que se desfaz na boca próxima, amortecida pelo seu éter de amante. a rompe feito uma matemática excessiva e depois sela o vazio com silêncio. o que transborda é habitado pelas licenças poéticas, foge aos nomes e às línguas...

ela o sente como o vento que bate a porta...

cinemascope brilhante VI

o vento que encerra a porta, abre arbitrariamente o livro na página do meio. são descritos ali os termos das abstrações. porém todas elas se concretizam em palavras e nenhuma imagem se faz. depois, a página que se vira se torna a ela mesma, como se a continuação fosse única e estagnada pela falta dela. são logo as abstrações eternizadas, contidas num gerúndio babilônico, tão redundantes que a nada se abstrai também.

cansada, ela contempla pela janela um tempo para a monotonia, a séculos de altura, vivenciando sempre a mesma paisagem, a daquele amor sem idade e nem consumo. quase acredita em um seguinte capítulo, talvez o de descer ao futuro onde encontraria o solo para os pés descansar, mas lá do alto pensa no céu, onde sua nostalgia parece mais genuína e a remete às imagens que subliminarmente tingem seus pensamentos quanto aos antigos capítulos.

cinemascope brilhante VII

no escuro, ela vislumbra por outros olhos algo que lhe pertence. é tarde quando o tempo canta a sua existência e penetra-lhe numa incessante intenção entre os sentidos, ansioso por desnaturar os tecidos da sua intolerante negligência. o seu corpo pede mais uma vez um pouco de reconhecimento, como se a insônia lhe obscurecesse o ar e arquitetasse um labirinto de tanta reflexão insólita. nenhuma sinuosidade lhe foi útil porque sempre se deparava com a mesma urgência, circundava em torno da monocromática inércia em busca do seu impreciso paradeiro.

no escuro, ela se espera sozinha, tateando o frio comprimento dos seus pêlos em espanto. nada lhe é mais visível do que a sensação que se causa agora, nem há outra graça além dessa nitidez tátil. ela, então, devora aqueles olhos para não esquecer o caminho que fizera até ali e se perde numa paz ensurdecedora.

logo, o cansaço a envolve para temperar a noite cúmplice que se adia, abotoando-lhe as densas pálpebras e conduzindo-a a silhueta de um sonho...

cinemascope brilhante 8

fugir do tempo era um beijo congelado, e a madrugada púrpura rebentou as hipóteses de um místico amor. mas este não cheirava feito o tempo, somente feria as concordâncias, todas ao frio do vazio, ante aqueles corações ardentes a derramar demasias de um grito sem lugar. quanto mais aquosos e pungentes, surtindo uma lisérgica ininterrupção, menos reparavam na condição do tempo perto de perder-se ao penetrar-se naquelas ânsias, feito integrante da matéria que lhes palpitou sem ruído.

fugir do tempo era perpetuarem-se náufragos, unidos por uma memória imprópria, e a inexistência pôde enfim tornar-se real, como a madrugada púrpura que nunca houvera. mas aquela simbiose ofegante, das vontades dos amantes, poetava-lhes os segundos seculares de que careciam.

ainda o faz...

domingo, janeiro 20, 2008

"onde morre a poesia?"

nada escapa à intenção do tempo, mesmo que os pés andem pelo chão e os dias pelos ares, a poesia permanece e é feito a lua... se hoje ela míngua, é porque ontem transbordou e, indubitavelmente, amanhã se renovará...

onde é só invenção...

cântico sem data VI

momento para concretizar
o que já é concreto,
viabilizar a impossibilidade
de ser o que já é...

cântico sem data V

São sete horas da noite e os ponteiros me servem de diagnóstico
É a vista que se turva para que outros reflexos me sejam favoráveis
Ainda reconheço as formas à minha frente
Mas onde estarei agora pincelando horas que me convém?
Percebi que o tempo não está ao meu lado
Foi este vento que bateu
E que ainda balança os pingentes de metal...
balança... balança...

cântico sem data IV

sinto por aquele sonho desinteressante...
tal qual fosse de papel e se borrasse com a ponta de idéia que se repete
um sonho de tédio!
sinto mesmo,
ainda desperta torno a usá-lo como esboço...

cântico sem data III

o penhor dos sentidos de agosto
confia o peito sobre a pedra irredutível e impalpável
do gozo ao desgosto
da rocha muda e perpétua
que confinada sob a carne omissa
aguarda a erosão de um segredo

cântico sem data II

estou captando a intuição subliminar...

e ela é explícita.

cântico sem data I

maneira de dizer, como os peixes me sobrevoam...
é o vento que os traz e logo os leva em retorno
instante de imperfeição
assim é como me parece a felicidade.